A Poente...

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Na Baía de Nacala!

Alfacinha

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Luso calaico

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

7 Anos

O espaço é amplo à escala local, uns 15 por 10 m cobertos de lusalite. As paredes repetem o padrão das extensões planas de matope em período seco, cheias de rachas – a construção tradicional utiliza uma estrutura de paus atados e cobertos de lama. O chão é de matope também, algo irregular. Desta sala central entra-se por 3 “portas” (cobertas com panos) para quartos e sala mais pequenos, onde se aloja a família. Não existem portas nas 2 saídas para o exterior. Este é o ponto mais animado desta zona do bairro, numa das “ruas” principais: um dos serviços mais populares nas zonas “sub urbanas” das cidades e vilas de Moçambique – o “cinema” local, com televisão, video ou DVD e som a sair de grandes colunas e bem alto. O público instala-se em cadeiras de pau e bancos de tábua, em frente ao “palco” protegido por corrimão de vara e um pouco mais alto. De facto, quando não está a funcionar, a partir dessas 19 horas, toda a gente está nas suas casas já a dormir. Quando funciona, é o ponto de luz, música e animação, concentrando à sua volta passeantes, pequenos comerciantes, espectadores intermitentes e sempre, muitas crianças. Mantém-se assim o movimento até essas 21 ou 22 horas, dificultando o “trabalho” dos ladrões frequentes na zona.
Hoje está dedicado à festa de aniversário de uma das crianças da família. Depois de estendida a esteira, servem-se os petizes. Cada um com seu prato de arroz, salada e caril de galinha. Mesmo os mais pequenos treinam a sua independencia e o jeito de comer com a mão. Estão contentes. Os adultos são servidos a seguir, batata frita, arroz, galinha, caril, salada, algumas cervejas e refrescos. Um amigo mais idóneo em pequeno discurso situa o acontecimento e instiga ao repasto. Entre familia próxima (50%), afastada (40%) e visinhos (10%) estarão umas 60 pessoas. Todos vivem ali mesmo ou muito perto. Baixa-se a musica e a refeição decorre em quase completo silêncio. Recomeça o som ambiente e trazem o bolo de anos, muito bem coberto de chocolate, que a mãe acende nas velas para a filha, a prima e o primo poderem soprar, depois de cantados os parabéns. A mãe “abre a sala” com uma dança mexida e todos se concentram em bailados ritmados, de passada e kizomba, rap ou marrabenta. A animação atinge o auge à medida que o Zed vai sendo repartido. Trocam-se pares e fazem-se acrobacias. Cada qual tenta superar em jeito e contorsões aos ritmos intensos os restantes dançarinos. De vez em quando um “slow” encosta os pares, que vão alternando. Trocam-se estórias e piadas e as gargalhadas dominam o som de fundo. Apesar do fresco os mosquitos não desistem e tentam também a sua refeição perigosa – não há maneira de os evitar aqui. Pela meia noite os convidados começam a retirar-se – amanhã é dia de “trabalho”! Mas a festa foi muito boa e toda a gente está satisfeita! Até à próxima!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Porque hoje é Domingo...

Logo a seguir ao mercado do Brandão, cheio de gente como sempre, na segunda ou terceira zona de água, o carro enterra-se. Como não chovia hà vários dias, não tinha ligado os cubos. Em manobras acrobáticas para evitar por os pés no matope profundo e malcheiroso, eu e o Vasquinho cada um de seu lado, conseguimos ligar a tração nas rodas da frente e saimos sem dificuldade. Vagarosamente, passamos o bairro Manhawa, muitas crianças por todo o lado e chegamos a Santagua. A irmã mais nova traz uma cadeira e senta-se na outra. Os 2 batuques estão elegantes ao sol, com peles novas, raspadas, tensas e ainda mal secas. O som ecoa com potencia. Ao longe escutamos uma batucada para tratamento de “reumatismo” e mais perto os gritos entusiásticos do público do futebol. Passamos ao lado em casa da irmã mais velha, viuva que vive com o seu único filho: sorridente, atarefa-se com as tranças do seu cabelo farto e emanharado. Em vários recintos deparamos com arroz colhido de fresco a secar ao sol. Por todo o lado, pequenas bancas de tudo, carvão, bolachas, fósforos, laranjas, estão guarnecidas do seu “comerciante”. Mais à frente, timbilas e batuques marcam as danças na festa de aniversário. Boa tarde, boa tarde! Passamos pelo meio do mercado do bairro no regresso, muita roupa de segunda mão, óleo em orgãos de embalagens plásticas digitais cor de ouro, raparigas lindas em capulanas de cores vivas e compramos arroz novo para comer mais logo. O ambiente é de Domingo no Bairro.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Não caça

Cerca de 5 km a Sul de Caia, depois de passar a grande ponte Emilio Guebuza sobre o Rio Zambéze, vira-se à esquerda na pista em direcção a Marromeu. Com piso bastante regular, de terra barrenta vermelha entrecortada por zonas de areia, o percurso rumo a Este atravessa áreas de savana, de floresta escassa e de floresta densa – interrompido por vezes pela passagem de bandos de macacos. Após 60 km a primeira aldeia, Chupanga. Mais à frente estamos já em terreno totalmente plano, capim alto, matope, buracos enormes cheios de água, uma autêntica gincana, muito sacudida, até chegar a Marromeu (100 km)!
Aqui depara-se um agitado polo agro-industrial, pilotado pela companhia Sena Sugar: 24 horas por dia, 7 dias por semana, chegam consecutivamente tractores com vários e grandes atrelados cheios de cana e saem camiões carregados de paletes repletas de sacos de 1 kg de açucar, amarelado de grão grosso. A grande fábrica emprega centenas de pessoas, têm “caminho de ferro”, porto, bairros, escolas, centro de saúde, instalações sociais e desportivas.
A vila de Marromeu é sede de Município na Província de Sofala; tem uma igreja grande, muitas lojas, alguns bares e pensões, muita gente, longas ruas de mercado, vários artesãos, biblioteca, aerodromo. Está no centro de uma zona com várias reservas de caça, que confina com o Parque Nacional da Gorongosa – encontram-se claro muitos crocodilos, hipopotamos e macacos, também bufalos e vários cervídeos. O melhor sítio para ficar, atualmente, é o “Pappa Lodge”, nas istalações da companhia SS, em moradias algo tradicionais, com bar e restaurante, música e animação.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A doce insignificancia do estar

Imagina caminhar num solo em que as pegadas desaparecem em poucos segundos?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Au revoir

20 de Junho

O dia nasce cinzento com temperatura fresca. A dona da casa procura saber o que faz falta para a primeira refeição; mas a mesa já estava bem servida: o mata bicho tem inhame, chima, “galinha em sal”, ovos estrelados, papaia, laranja, chá, café, água. A nossa anfitriã é muito bem disposta, fácilmente às gargalhadas, nascida em Quelimane também se exprime em “Manhawa” (língua de Lugela, uma mistura de Lomwe com palavras Nguni ou Angune). Depois do repasto carregamos 5 batuques: 2 foram vítimas da grande batucada (peles rompidas) e ficarão para reparação. Visitamos o Centro de Saúde, para ver os estragos anunciados nas coberturas tradicionais dos pre fabricados; atravessamos o mercado cheio de gente a esta hora do Domingo e fazemos-nos à pista, em muito mau estado, em direcção a Mocuba e Quelimane. Aparece o sol e paramos no blindado abandonado à entrada da vila, fóssil da guerra civil, para registo memorável.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Rica terra

19 de Junho de 2010

Até à capital de Moçambique, proposta por Samora Machel por se encontrar no centro do país, são 2 horas de alcatrão bem liso sem problemas. Atravessamos a ponte nova e depois de hora e meia para fazer 50 km desde Mocuba, na pista má, cheia de buracos, zonas de lama funda, algumas derrapagens (tração não estava ligada), “tole ondulée”, pequenos choviscos, chegamos a Lugela ao fim da tarde. No “Mussaca”, albergue construido com materiais e arquitectura local, estavam à nossa espera e escolhemos os quartos. Os lençois são de pano muito branco e grossos, cheiram tão bem a lavado! O moço pergunta logo se quero ver os batuques que tinha já antes encomendado e pago, ao que respondo imediatamente que sim. Os 7 batuques encontram-se muito bem expostos, alinhados num banco na cabana dos jogos: muito potentes, baixos, pesados, fechados na base, 2 com um alto relevo rectangular, os mais pequenos. Chegam os 4 rapazes, muito jovens, que vão tocar e veêm cumprimentar. Pouco depois, apresenta-se a autoridade comunitária, o Sr. Francisco Lampião Alfaiate, líder do grupo de música, dança e cantares. Passamos à refeição, de arroz, chima, galinha, caril, ensopado de cabrito, piri piri, cerveja, refresco, água, na cabana destinada a restaurante. Vamos falando das histórias da terra, dele, um senhor de 65 anos muito bem conservado, da guerra, dos locais, caminhos e tradições, mitos até e histórias para crianças. Duvidam que eu não acredite na cobra de 7 cabeças que saiu da pedra da montanha e causou muito prejuízo. Depois da fruta, passamos ao exterior, para o pequeno recinto plano onde se prepara a batucada: 5 batuqueiros, 7 batuques, 10 dançarinas cantadeiras, 1 mestre de grupo, arrancam em cheio, com energia, muito ritmo e ótimo som. Os coros das mulheres, desafiados pelo solo do homem, clamam heróis antigos. As vozes daquelas mulheres, em melodias polifónicas, ressoam com a terra e o ar denso. As canções falam sobre histórias passadas há muito tempo, das famílias, suas alegrias e tristezas, amores e traições. As danças são agitadas e rápidas. As dançarinas principais, que alternam, vão desafiando e provocando os batuqueiros. As obras duram quase sempre muito (10 min) e os intervalos são curtos. O grupo irá actuar toda a noite, durante cerca de 7 horas, bebendo zed, sempre com alto nível! O céu agora limpo e estrelado, vai-se cobrindo e começa a chuviscar. Ninguém parece notar, um pouco abrigados pelo cajueiro. Acende-se um fogo para dar algum calor e claridade. Está fresco – vestir blusão! O ritmo acelera, o tom aumenta. A noite de Lugela, no meio da floresta tropical húmida, leva-nos ao centro da mãe terra.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Tratado de História das Religiões 2

A ideia da regeneração periódica do tempo pela repetição simbólica da cosmogonia: em todos os planos – desde a cosmologia à soteriologia – a ideia da regeneração está ligada à concepção de um tempo novo, quer dizer, à crença num começo absoluto ao qual o homem pode, por vezes ter acesso.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Tratado de História das Religiões

Nostalgia do Paraíso: a necessidade que o homem experimenta constantemente de realizar os arquétipos até aos níveis mais vis e mais “impuros” da sua existência imediata; a nostalgia das formas transcendentes – do espaço sagrado.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

História das Religiões 2

A continuidade dos lugares sagrados demonstra a autonomia das hierofanias; o sagrado manifesta-se segundo as leis da sua dialetica própria e esta manifestação impôe-se ao homem de fora.

Hierofania = crença no sagrado
Hierologia = estudo das diversas religiões
Cratofania = “adoração” da terra

segunda-feira, 14 de junho de 2010

História das Religiões

É na mítica agrária pré-histórica que se encontra uma das principais raízes do optimismo soteriológico: tal como a semente escondida na terra, o morto pode ter esperança num regresso à vida sob uma forma nova.

Soteriologia = estudo da doutrina da salvação

terça-feira, 25 de maio de 2010

Filmes 3

As cores sucedem-se rápidamente. Ecrâ gigante panorâmico plano super liso. Há interferência na imagem: desenterraram e roubaram o cabo de fibra ótica. A música permanece conhecida local. Mas já não há estações: alterações climáticas desviaram a época das chuvas. Hollywood, já não é o que era. No caso do www Twiter, o heroi é digital bem constituido. Mas o adversário, “cheiíssimo” de truques paranormais, já tinha sido celebrado em três cerimónias de falecimento. O Zé cumpre as profecias de há 500 anos do Fernão Mendes Minto e remete-se ao nível zero: equilibrio de flutuação no mar oceano. A paixão ficou esquecida no estudo da história das religiões e o crucifixo tinha sido roubado pelo Papu. O realizador derrapa no guião, os personagens escorregam nos papéis, os produtores enganam-se de script, o cameraman adormece em Babel. A Mãe do PANTrust 0010, chefe transexual homo, nunca teve filhos e as férias também já não existem. Os efeitos especiais da realidade virtual, projectam os públicos pelas paredes, as velocidades do cabo inundam e abandonam as audiências. O dono do cinema fecha as portas, toda a gente já tem DVD em casa. Está aberto o circo!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Filmes 2

A cores no êcram gigante. O clima é tropical húmido abafante, o sol nasce e pôe-se cedo. No caso do OO Zulu, Missão Impossível, o herói é impecável. Mas o adversário agente triplo, com acesso aos programadores oficiais, tinha já infectado o sistema. O Bond atravessa muitas dificuldades, ultrapassa muitos obstáculos e acaba por obter os resultados previstos visíveis e comprováveis, chapados em power point. Claro que a paixão alivia o sacrifício e eleva as almas e a tecnologia facilita o enredo na rede. A Mãe do Pinball US1 na Twin Tower, chefe alterável, desconhece o filho e as férias estão em causa. O público interroga-se e a sogra inicia o zaping.

sábado, 22 de maio de 2010

Filmes 1

A preto e branco. O clima é nórdico gelado e nevado. No caso do 007, Ordem para Matar, o herói é impecával. Mas o adversário é enorme e muito potente, cheio de truques. O James atravessa todas as dificuldades, ultrapassa todos os obstáculos e acaba por vencer todos os enimigos para obter o santo Graal. Claro que a paixão alivia o sacrifício e a tecnologia facilita a história. A Mãe do MI15 na Tower Bridge, chefe inalterável, reconhece o filho e as férias estão garantidas.

sábado, 20 de março de 2010

Para onde vamos?

Despertos para caminhar em frente, temos que saber onde estamos. Questionamos o que fazemos: Correcto? Eficaz? Eficiente? Onde começamos, o que conseguimos, o que queremos, o que podemos conseguir? Rompemos rotinas e barreiras, desafiamos novos caminhos. A mudança é a constante da vida! A responsabilidade é nossa!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Estreia

11 de Março 2010

Ainda está escuro mas existem logo acima do horizonte Este alguns pedaços de céu azul claro. A tripulação está a postos e saímos lentamente do Porto de Pesca para os Bons Sinais. Será uma viagem de cerca de 100 km, quase todos no mar. Aparece o clarão amarelo avermelhado a bombordo quando avançamos pelo canal em direção ao Índico, estando já o dia pleno quando aí chegamos. Pouco movimento, raras canoas, algumas pessoas nas aldeias da margem esquerda.

O vasto oceano está calmo, as ondas são seguras, o céu bem azul forte sem nuvens. Viramos a estibordo, direção Sudoeste, contornando Inhassunge, passamos em frente da Capitania de Olinda, farol branco, é visível o estrago dos coqueiros. Passamos a entrada para o canal de atalho (em direção ao Seminário de Mucupia e Quelimane) e continuamos ao longo de uma costa de dunas impressionantes. Lentamente (9 km / h) o barco vai baloiçando em direção à foz do Rio Zambéze ao longo da linha amarelo verde baixa a oeste, já Distrito de Chinde.

Avistamos primeiro uma faixa de casuarinas ainda em praias de Micaun, entramos numa zona bem delimitada de àgua castanha, logo a seguir avistamos o grande espaço liso correspondente à entrada do Zambéze e à esquerda a antena de comunicação da Vila de Chinde, rodeada de coqueiros. Aproximamos-nos da foz mas somos obrigados a recuar, pelas ondas agitadas em rebentação criadas pelos bancos de areia, refazendo a aproximação mais a norte em zona mais calma. Algumas pessoas tomam banho na praia, várias canoas de pescadores trabalham com redes, um grupo grande de pessoas perto de uma tenda no alto da duna são os deslocados das inundações.

domingo, 14 de março de 2010

Cabotagem

12 de Março 2010

Vamos a pé do centro da vila até ao porto improvisado. A maré começou a vazar e fá-lo rápidamente. Temos pressa em sair mas houve alguns atrazos. Está muito humido e enevoado. Largamos a praia de Chinde em direção ao mar, prescutando a linha de rebentação ondulante branca no horizonte. A agua cor de barro quando se eleva imita um morro a subir. Tentamos aquilo que parece a zona mais calma e seguimos. Mas as ondas começam a crescer, o barco executa piruetas, o piloto vai parando o motor e retomando a rota perpendicular aceleradamente para vencer o obstaculo. Pouco mais e estamos fora da zona agitada, virando a bombordo rumo a nordeste.

Mais à frente passamos o limite bem definido entre as águas do Zambéze e o mar, com uma mudança radical de cor para o esverdeado, numa linha espumosa interminável. A umas 8 milhas da costa avistam-se 2 pesqueiros industriais de porte médio. Passam alguns barcos de pescadores ao longe, vela triangular; está bastante calor apesar do vento fresco. As medusas na àgua são raras. Os cumulos brancos dispersos e baixos enfeitam o céu muito azul e temperam o clima.

Pouco antes da entrada dos Bons Sinais – Rio Cuacua, a sul ainda em frente a Inhassunge, depara-se com uma nova linha de cristas brancas, elevando-se harmoniosa e concertadamente no horizonte. As ondas, altas de 4 ou 5 metros, chegam-nos paralelas ao barco, tornando-se imperioso distanciar-nos da costa virando a estibordo. O perigo destas situações é que correspondem à existência de bancos de areia, que podem ser fatais no caso de ondulações extremas. O piloto concentra-se e após algumas subidas e descidas imponentes saímos da zona de agitação sem problema.

Mais a Norte temos a primeira boia e viramos a bombordo, entrando no canal para chegar a Quelimane em cerca de uma hora. Não é difícil de imaginar que há 500 anos atráz esta era a foz do Rio Zambéze e não Chinde, 80 Km mais a Sul. Vamos cruzando com um tráfico intenso, canoas e barcos de pescadores, uns remam, outros com velas triangulares multicores de farrapos vários de pano e plástico, outros arrastam as redes, outros transportam os sacos de carvão para as cozinhas da cidade. Sobre o mangal do horizonte destacam-se os 2 volumes principais da urbe, o Banco de Moçambique e o Hotel Chuabo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Concentração de grupo

Saída do estaleiro a subir

Não há truque! As trinta toneladas foram de facto arrancadas do estaleiro, ligeiramente a subir, seguidamente entrando no leve declive da praia, com uma elegancia marítima!

A força da palavra

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

É Natal

24 de Dezembro 2009

Prepara-se um grande parto. O estaleiro no topo da duna, junto ao farol da praia do bairro de Paquitequete, apronta-se a lançar nas águas da baia de Pemba, o veleiro ainda sem mastros, construido em madeira durante seis anos pelos carpinteiros navais locais. São os últimos preparativos, alguns toques de calafetagem, pintura do branco, remoção das canas e chapas de sombra. A cerimónia é conduzida pelo velho lendo os capítulos apropriados do alcorão, ajudado pelo jovem que acentua o coro e coloca os paus de incenso.
Abre-se o estaleiro retirando as paredes de caniço. Retira-se o pessoal e afastam-se as crianças. Ajeitam-se as tábuas longitudinais e os rolos transversais para a viagem. Amarra-se a corda, enchem-se e instalam-se os sacos de areia, aplica-se o macaco que levanta trinta toneladas. Removem-se, um a um, os calces. Rasgam-se os sacos de areia. O barco descai sobre os rolos de metal. A população ordena-se pelos dois ramos da corda e concentra-se no esforço. Fala-se muito alto. O movimento será ditado pelas palavras!

São várias tentativas sem resultado. A corda é manifestamente muito insuficiente. O percurso inicia com uma ligeira subida. Decide-se amarrar também a grossa corrente metálica da âncora. Aplica-se oleo nos rolos. Concentração geral. Ritmo gritado cadenciado. O enorme esforço arrasta o barco quinze centimetros. O pessoal anima, mais vinte centimetros. Mudam-se tabuas e rolos. Continuamos, o entusiasmo acentua-se. Fazem 10 metros, insistindo na curva a bombordo para encurtar caminho para a água. O movimento “rápido” e a falta de atenção na colocação do rolo para o estabilizador de bombordo, provoca a queda do barco e a fractura daquele.

O desânimo é pesado e a agitação está no auge. Devem estar por aí 150 pessoas, entre os 70 homens contratados, mulheres, crianças e espetadores. Fala-se e grita-se muito. Vários grupos empreendem acaloradas discussões. Mãos à obra, quer dizer, à madeira, com toda à gente a endireitar o barco. Ritmo cadenciado. Palavras gritadas, coro surdo. Mexe. Cunhas preparadas. E sobe 5 centimetros. Outra vez, mais 10. Mas descai um pouco. O pessoal está cansado. Volta a insistir e melhorou. Concentram-se na popa. Em coro. Fica direito. O estrago no estabilisador não é catastrófico, será possível resolver sem grandes contrariedades.

A tarefa não foi concluida. Estamos a 50 m do mar. O Chefe de 10 Casas arranjou alguma confusão com os pagamentos do pessoal ficando decidido adiar para amanhã de manhã. Ámanhã será sobretudo necessário reparar o estabilizador, prevendo-se que o barco só possa sair para o mar dia 26.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Crocodiles!

Esforço muscular humano

26 de Dezembro de 2009

A manhã está quente, embora com algumas nuvens para abrandar a potência solar. O Índico cercado na baia é de prata calma. Desço à praia, paro na sombra da acácia. Duas tripulações ocupam-se de pequenos arranjos nas embarcações encalhadas da maré baixa. Contorno a baía e seus naufrágios.

O estabilizador do veleiro foi bem reparado e teve tempo de secar a cola. Muitas crianças, alguns adultos, neste momento disputam-se as sombras todas, escassas. Tinha já sido escavado um leito na areia mole, em forma do casco, ligeiramente descendente até à linha de água, em que as tábuas e rolos foram sendo acomodados. A população juntou-se, a corda e a corrente estavam preparadas. Em coro comandado, incita-se o grupo. 50 homens concentram o esforço muscular ao som da voz cantada bem ritmada. Nem mexe. Nova tentativa. Zero centímetros. O pessoal desanima, a gritaria aumenta. Discute-se.

Já tinhamos pensado, combinado. Traz-se o 4x4. Liga-se a corrente. Puxa. Nem mexe. Precisamos do carro, mas só com a ajuda de todos poderá resultar. Volta-se a reunir o pessoal, todos pegam na corda, alguns na corrente. Coordena-se o comando de voz com o sinal gestual para o “driver”. Mas a população parece que tem medo, a corrente em extensão não oferece confiança. O 4x4 patina. A população observa. Puxa. Patina. Colocam-se tabuas e barrotes, o carro continua a enterrar-se e nem consegue estremecer o barco. Desânimo é geral. Não têm problema, amanhã vamos buscar um tractor potente. O barco vai para a água!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Paciência

27 de Dezembro

Domingo de manhã a cidade está vazia. Da Mesquita próxima chamam para a oração. Desço para a marginal por uma secundária com algumas sombras e as pessoas já dizem bom dia. Nas rochas da linha de água, duas pessoas em “fecalismo a céu aberto” como se diz aqui, hábito generalizado nos Mwani, Nahara e Khoti.

A maré ainda está meia e o veleiro recorta-se no horizonte da praia. Chega um “dhow” carregado de gente do outro lado da baía. Num barco de pesca á rede encalhado ao lado, o mecânico tenta por o motor a funcionar sem resultado. Visitantes vem apreciar os trabalhos de lançamento.

O comandante já se atarefa para um lado e outro, junto dos dois carpinteiros, do chefe de dez casas, do capitão. Sai para ir buscar um trator de um certo amigo, que aparece ao final da manhã, amarelo, rodas grandes, girando na areia ao longo da linha de água, vindo da direcção do Porto. Prepara-se e liga-se a corrente e reforça-se a corda. Combinam-se os sinais que devem marcar o arranque e a paragem da máquina, tendo em conta o correto apoio dos estabilizadoes e a facilidade de deslize da quilha. Ajeitam-se os tubos metálicos e as tabuas. Estica-se a corrente. A população, pouca gente, muito calor, assiste.

Mete a primeira, patina. Reforça-se o piso com mais paus e tábuas. Mete a primeira. De cada lado do barco, um “controlador” levanta o braço indicando autorização para puxar; conforme combinado, braço em baixo é para parar. Arranca, estica, estala a corrente. Nada feito, nem mexe. As pessoas reunem-se à volta da popa para empurrar. Reforçamos o piso em frente dos pneus do trator. Mete primeira, ao levantar o braço, ditado pela voz do coro que comanda os homens à popa, desembraia, patina, nada.

A população concentra-se na popa. Arranque à voz! Esticam-se os cabos. O trator patina. Nada feito, o barco nem mexe. Manobra-se a maquina e reforçamos mais uma vez os trilhos das rodas com paus, sacos de plastico, tabuas, lixo! Novo arranque, estrondo, rebentou uma das cordas de apoio, chicoteou um jovem: pequena tumefação na coxa direita, nada de grave. Voltamos a preparar os cabos. Arranca-se desta vez, com melhor coordenação com o povo que empurra na popa! E vai, estremece, mas não avança. Coragem, nova tentativa, coordenada, em coro. O esforço é grande, sem recompensa. Esta máquina não consegue ajudar, deveremos encontrar um trator com tração às 4 rodas e bem mais pesado.

E está na altura de tomar um banho para refrescar, nas águas transparentes azuladas e macias, limpando o falhanço e lavando a paciência. A tarde vai escurecendo e o trabalho ficará para amanhã! Vamos procurar de comer

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Entusiasmo

28 de Dezembro

Na cidade baixa as lojas estão concorridas, grupos de homens sentados na sombra dos armazéns, cabras passeiam nos jardins, duas pessoas levantam dinheiro no ATM. Como prioridade antes de descer à praia, comprar garrafa de água.

O amigo francês sentado à sombra do telheiro de bambu da sua lancha em reabilitação parece dormitar. Presentes o Capitão e os 2 carpinteiros principais. Vamos então buscar um tractor mais potente, com tração 4x4, pesado, rodas grandes.

Dispoem-se as pranchas. Estica-se a corrente, as cordas ficarão para as pessoas. Combinam-se os sinais. O homem tenor arranca a fala sincopada. O coro eleva-se, o trator mete primeira, o barco deliza 20, mais 15, mais 10 centimetros. Parar. Retirar troncos, rolos e tábuas, escavar mais á frente, voltar a colocar. Novo posicionamento. Voz, arranque, fazemos 1 metro, parar. O processo vai-se repetindo. O entusiasmo é geral. Cinco mulheres protagonizam a liderança e incitam a continuar para o mar, carregando tabuas e rolos. Com a ajuda da população animada, do trator, arrastamos as 30 toneladas do veleiro cerca de 15 m. No próximo movimento, a desatenção num rolo de Bombordo provoca a segunda queda. O desãnimo é geral, o ruido aumenta, a agitação atinge o auge. A queda sobre uma das estacas de apoio arrancou parte do corrimão de bombordo e o aspecto é de naufragio, confrangedor.

Mas os homens de Paquitequete não se deixam vencer: mãos à obra, melhor à madeira do veleiro, estacas e cunhas preparadas, voz de coro, e upa; centímetro a centímetro, lenta mas decididamente, a população remete o barco em posição vertical. Estamos mais descansados, o estrago não é catastrófico. Já tínhamos combinado para hoje – dois cabritos, seis galinhas, um saco de arroz, cinco litros de oleo, seis latas de tomate, alho e cebola, as mulheres trouxeram as panelas e o carvão - e serve-se a grande refeição comunitária de arroz com caril de cabrito e galinha. Em todo o areal à volta do veleiro, grupos atarefam-se em redor de pratos de folha avantajados, crianças, jovens e adultos. A boa disposição é geral!

A avaria do estabilisador poderia ter sido evitada se os parafusos tivessem sido substituidos, na medida em que depois de torcidos uma vez, ficam logo mais frageis. Mas enfim, aprender é até morrer e amanhã há mais. O mecânico sobe ao barco para pôr o motor a trabalhar uns minutos; já tinha preparado um recipiente de duzentos litros de água, ligado por um tubo à maquina, para refrigeração. Arranca, ruminante, soltando um fumo cinzento. OK!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Persistência

29 de Dezembro

Saio da Hospedaria procurando as escassas e interruptas zonas de sombra junto às fachadas. As mulheres vestidas nas suas capulanas de cores vivas e contrastantes sobem a avenida. O sol ilumina tudo drásticamente e o calor é muito. Curvo á esquerda tomando uma transversal virada ao porto. Numa oficina mecânica improvisada de rua, três viaturas, dois motores à vista, um grupo de homens e jovens. Bom dia! Desço a colina da cidade baixa até à marginal, entrando na praia.

Ontem o barco parecia um naufrágio na praia. Hoje, os dois carpinteiros principais já repararam o corrimão de bombordo (até parece que não houve nada) e atarefam-se sobre o estabilizador de bombordo, ainda desmontado. Num toldo improvisado, a máquina de soldar fornece o apoio derradeiro. O povo circula, discute, o comandante pede espaço de manobra. Quadro homens orientados pelo carpinteiro chefe aplicam o estabilizador ao casco, com cola especial e a força do macaco. Apertam-se os parafusos a partir do interior. Parece novo. Agora deverá secar!

Vamos buscar água que a transpiração aperta. O chefe de dez casas está preocupado com a saída do barco para o mar e o ilustre muçulmano diz que tudo sairá bem. No final do dia o estabilizador está bem reparado e calafetado, fixado com boa cola impelida pelo “macaco” de trinta toneladas, com parafusos novos e mais fortes. Vai funcionar! O mecânico sobe ao convés, deche ao porão das máquinas, faz arrancar o motor. Trabalha regular, ruido fundo, expelindo jatos de água. Ótimo. Amanhã o barco poderá entrar no mar!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Batucada

30 de Dezembro

Quarta-feira na cidade de Pemba, capital da Província de Cabo Delgado, acordo com o chilrreio dos pássaros. Depois do mata-bicho, faço-me ao calor do verão africano. Passo a levantar um “cash” no “ATM”, aproveito a sombra da acácia enorme, flores vermelhas, aprecio os padrões arquitectonicos dos “setentas", marcas do esforço do “Estado Novo” para segurar a antiga “colonia”. As viaturas insólitas, ecoam na subida para a cidade alta. Remeto-me à costa, vagarosamente e saboreando só o tempo. Lá em baixo, o Índico reflete lápis lazuli.

Contorno a baia, paralelo à barreira de caniço do bairro e chego à zona do farol. Alguns miudos brincam na areia em pleno sol escaldante. O comandante ainda não tinha chegado. O capitão atarefa-se no convés. Os carpinteiros decansam à sombra no antigo estaleiro. Chega um barco de vela árabe da outra margem com várias pessoas que transportam fardos. Embora à sombra, a transpiração abunda. Tiro a roupa. A água é transparente e suave. Um banho no azul está mesmo a calhar!

Aparece o Comandante agitado, as coisas não correm bem com os locais, o trator não apareceu. O receio de um novo desastre é muito: não há duas, sem três. Decide-se aguardar pela próxima maré alta. Que será esta noite, pelas duas horas e vinte minutos, segundo as tabelas, diáriamente vigiadas pelo Comandante.

Entretanto várias crianças da Madrassa aproximam-se do toldo, transportando batuque largos, baixos e redondos, pintados de vermelho tijolo. Maioria de pequenas raparigas, de cinco a dez anos, cobertas de véus vaporosos azuis, cor de rosa ou verde claros, iniciam a cantiga em coro. Os rapazes, orientados pelo professor, percutem nos batuques, fazendo aquele a voz solo. Uma mulher mais velha, aproxima-se, vai cantando e dançando junto ao grupo. O fim de tarde de tons rosa laranja vermelhos, mistura-se com os sons do pequeno ponto de cores multiplas sobre a areia da praia

Então, vamos até à “Wimby Beach”, zona “queque” de Pemba, para uma boa refeição! Lulas!!! A Oriente a lua quase cheia está enorme ao sair do mar. A Laurentina está fresca mas deitamos cedo, daqui a pouco há que levantar!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Celebração

31 de Dezembro

A maré alta subiu bem e às duas horas da manhã o veleiro está, miraculosamente, a flutuar. Rápidamente dispõem-se as duas ancoras. Dá-se ao motor de arranque. Nada, uma, duas, três vezes, nada. O Comandante agita-se, o mecânico aplica-se, o motor arranca e o veleiro sai para a baia. Ensaiam-se as mudanças e o acelarador, tudo com muita cautela. A roda do leme responde muito bem e a estabilidade do barco é notável. Navega-se para o largo da baia, retorna-se para Oriente e depois regressamos à praia. Desligar o motor, lançar as âncoras, descansar um pouco – das emoções!

Às treze horas acompanho o Patrão Mor, o engenheiro e o carpinteiro navais, ao porto estaleiro para realizar a Inspeção da Autoridade Marítima ao Capulana. Na praia entramos num frágil plástico insuflavel de crianças. O Patrão Mor, descalça-se e pouco depois subimos na escada de popa do veleiro ainda sem mastros. Dão a volta, inspecionam: há uma entrada de água junto á quilha de popa. Convés, cabine, porões. Arrancamos com rota dirigida, bombordo, estibordo: o navio responde bem e rápido, o Patrão Mor aprecia. Muito bem, podemos celebrar com um pouco de branco fresco, temos liçença para circular na baia, até reparar a entrada de água e colocar o radio a funcionar.

Saímos então em bom ritmo para a praia de Wimby, passando pelo porto comercial, diante do cabo de Paquitequete, ao longo da marginal, pemba beach hotel, a uma velocidade de nove kilometros horários. Ancoragem, sempre a dobrar. Está maré quase vazia quando saimos no bote de plástico para a praia. O sol está a pôr-se e ao mesmo tempo aparece a lua cheia.

Jantar melhorado e bem regado, não fosse noite de festa. Ao longe, do complexo turístico, o fogo de artifício enche de cores reflexas o céu da baia. Céu limpo estrelado e muita animação. Música de todos os lados, quantidade de gente circulando em toda a praia e avenida, lindas raparigas!

Mais um copo e aparecem as nuvens. O Comandante está cansado e pede para o Capitão o levar para o barco para dormir. Quando volta, lamenta que o Comandante tenha caido ao mar quando subia do bote para o veleiro, molhando telemovel e documentos. Começa a chover. A Lua cheia, vai aparecendo entre as nuvens, mas a chuva tropical copiosa, puxada a vento, insiste em impôr-se. Afastamos as cadeiras e as mesas mais para tráz na esplanada. Cachoeiras aparecem em alguns pontos da cobertura de capim. Começam os relâmpagos e trovões, cada veis mais seguidos e potentes. O espetaculo é belo e intenso. Nisto, no centro do cenário, um raio cai mesmo a cem metros à nossa frente, com um ruido seco e estranho, sobre o barco!!!

Celebração

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

sábado, 12 de dezembro de 2009

Aprendendo a vida

Chegam Ministros e Colaboradores. Agitação de final de ano muitos planos para o próximo. Perspectiva de saudades. Antecipação da ausencia. Com um novo passatempo, explorando o espaço entre o conhecimento e a sabedoria. Reconhecendo velhos novos caminhos, vivências, relações. Abrindo novos horizontes. Com calma, desfrutar bem a felicidade do momento prolongado. De novo com o tempo, essa dádiva da vida!

domingo, 29 de novembro de 2009

Eleições em Moçambique

O clima geral è calmo, os resultados não espantaram ninguém, embora tivessem havido algumas escaramuças localisadas. A democracia funciona maioritariamente, identificando alguns problemas específicos. Começaram as mangas e os lichies e o calor vai aumentando temperado por algum vento.

domingo, 8 de novembro de 2009

A descoberta de Iunga

Saio cedo da empresa, passo em casa buscar o essencial, paro na marginal, a maré está quase cheia e o movimento é intenso. Vou a pé ver como está o barco atracado e pago o bilhete. De marcha atráz, meto o Surf na rampa do porto da população de Quelimane, manobra delicada para entrar no ferry que já tinha um camião grande (recuou ligeiramente o máximo antes de eu chegar), ficando as rodas da frente bem sobre a rampa de carga do barco, cheio de gente, bicicletas carregadas de pesados sacos e motorizadas. Depois da sirene saimos pelas 16h 30 e em 10 minutos atravessamos o Bons Sinais e estamos a desembarcar na Recamba, já Distrito de Inhassunge. Seguimos directos pela péssima pista de areia, muito irregular, cheia de lombas e buracos, numa paisagem plana de capim e mangal ao longe, em breve arrozais a perder de vista, árvores de tronco amarelo e verde alface, inclinadas e elegantes, até Mucupia, sede do Distrito. Paragem logo à entrada no amigo Macangi, reserva de quarto e de jantar. Agitação no ar, vários carros e brigadas de diferentes candidatos às eleições Presidenciais, Legislativas e Provinciais em acção, colam cartazes neste fim de tarde quente. Passamos para o outro extremo da Vila até casa da avó, junto ao cemitério onde estão enterrados a maior parte dos familiares, em especial o Avô e o Pai – túmulo em terra. A família reune-se e ouve as visitas: vinham para limpar a campa do pai e pôr flores. Muito bem, amanhã de facto já havia um “programa” para aquela pequena comunidade: a limpeza geral do cemitério; começará muito cedo, por volta das 6h. Agradecemos e despedimos, está a escurecer. Deslocamos-nos para próximo, noutro bairro, paramos e visitamos uma tia avó, tida como um pouco louca, é convidada para participar também no dia seguinte e é-lhe pedido que não se venha a zangar. Diz que sim, que virá e de maneira nenhuma se irá zangar. Continuamos um pouco mais, no meio de coqueiros, arbustos, mangueiras, cajueiros, capim alto, paramos e deixamos o carro que não passará uma certa vala; seguimos a pé entre as palhotas e chegamos a outra casa dos avós. Esta avó, será aquela que detém a permissão de acesso à ilha deserta, propriedade da família, herança do Avô, chamada Iunga. Está difícil, um determinado tio deveria também autorizar. A visitante discorda a conversa anima. De qualquer das maneiras terá que ser feito o Mucuto (cerimónia). Veremos amanhã se conseguimos organizar a expedição; o avô lamenta que se tenha reservado quarto na pensão; gostaria que se dormisse ali mesmo, pensa que foi uma escolha totalmente errada; não queriamos incomodar, também o medo dos mosquitos. Talvez amanhã, se formos à ilha. Despedimos-nos e voltamos à pensão. Um bom jantar de peixe fresco, batatas fritas, salada de tomate e cebola, laurentina bem gelada, café. A musica, entre passada, kizomba e marrabenta, está mesmo boa. Amena conversa com o Sr. Macanji, personagem educadíssimo, bem disposto e ótima companhia. Vamos dormir que amanhã há que levantar antes do sol.

sábado, 7 de novembro de 2009

Buscando raízes

Levantamos cedo na calma do Macanji e saimos mesmo sem tomar o mata-bicho, atravessando Mucupia, pouca gente na rua, voltando na saida para Gonhane, virando logo à direita na margem do palmar, mais uma vez à direita para dentro, algumas palhotas, a pista imagina-se para chegar ao Cemitério familiar pelas 7h. Cerca de 40 pessoas distribuem-se por uma àrea rectangular, com alguns coqueiros, aquelas àrvores pequenas de folhas verde garrafa grandes e flores brancas muito bem cheirosas, varrendo, arrancando arbustos, cortando a erva, retificando os túmulos em terra, arranjando flores, falando. Várias campas em cimento são grandes e apresentam 3 ou 4 cruzes. Uma oração solitária. Afasto-me para ouvir os pássaros. Troco os bons dias com raros passantes. As crianças, muitas, aproximam-se: claro, não faltam os rebuçados de coco. Concluidos os trabalhos, as pessoas retiram-se em pequenos grupos, os da família mais próxima regressam à palhota da avó e lavam-se com a água do buraco pouco fundo, perto do declive para a baixa onde se semeia o arroz. Também bebem esta água turva acastanhada, não a fervem, não a tratam, dizem que estão habituados, não lhes faz mal. Sentamos-nos nas cadeiras dispostas em fila logo à nossa chegada e as conversas rolam em Português, Macarungo e Chuabo (Etxwabo). Aqueles que não vieram participar na limpeza do Cemitério, deverão dar um contributo em dinheiro. A neta deixa 50 Meticais e um sabonete. Despedimos e agradecemos. Seguimos já ao fim da manhã para a zona da outra avó, não muito longe, do lado (do Seminário) dos Padres junto ao estuário. O Avô recebe-nos animado e insiste muito na necessidade de ficarmos a dormir aqui hoje, na medida em que para ir à ilha terá de ser feita uma cerimónia e assim a visita deverá permanecer na casa da família. Chega um tio e mais outro, um primo e mais outro. À sombra do pequeno rectangulo de paus cobertos pela trepadeira de maracujá, fala-se da vida de cada um, das história passadas, sempre muito engraçadas, do comportamento deste e daquele familiar. Por tráz das duas palhotas está em curso a construção de salinas, com umas dez pessoas a trabalhar na remoção e alisamento de terra – o chamado “matope”; o problema até agora era que os tanques não conseguiam reter a àgua; mas mais recentemente, há já meia duzia de tanques que parecem funcionar; não se sabe ainda quando poderá ser tirado o primeiro sal; tudo graças aos “7 milhões” e também à contribuição do Avô. A Avó está de acordo: podemos visitar a ilha dos antepassados. Decidimos então regressar à pensão para anular a reserva de hoje e recolher os sacos. Rápidamente retornamos à Vila, onde o tio irá para o mercado adquirir o necessário para o Mucuto. Um duche no Macanji, comprar cigarros, Zed, mais qualquer coisa e regressamos a casa dos avós. Estaciono o carro, a tenda monta-se sózinha e preparo o necessário para a noite. O jantar está pronto, à luz da pilha e da lua, arroz local, muito, com caril de coco e galinha, está razoável; no final, mais uns pedações de frango assado, melhorou; tinha trazido umas Super Bock, um pouco quentes mas de fato ótimas neste ambiente. As histórias são muitas, ao lado do fogo; os tios aparecem, muito animados, estiveram a beber bastante cachaço; vamos controlar alguém para guardar a canoa, já apalavrada pelo tio, para que não saia para a pesca de manhã antes de nós chegarmos. De facto, a cerimónia só será realizada na ilha da família. Céu bem estrelado, apesar da luz do quarto crescente, às vezes escurecido pelas nuvens. Saída marcada para as 6 da manhã, vamos dormir; um vento fresco marca um clima ótimo. Parece de propósito, os coros das mulheres, de três palhotas perto, ecoam alegremente e de forma compassada, musica suave que embala os sonhos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ilha Deserta

O sol ainda não despontou e os lichies ainda um pouco verdes despertam os sentidos. Depois de lavar mal a cara na “casa de banho” em folhas de coqueiro, algumas bolachas, água bastante, duas moças lavam a loiça do jantar, arrumo a trouxa e já estamos atrazados: a Avó, o Tio, outro sobrinho órfão, os 2 meio irmãos e eu, saimos a pé ligeiros até à margem do “rio”: o marinheiro aguarda-nos na canoa familiar, prepara um “banco” para mim, folhas de palmeira no fundo do barco para não pôr os pés na água, saimos acompanhados do sobrinho com a sua canoa pequena. Cruzamos-nos com vários pescadores, também de canoa. Pássaros grandes, brancos, de pescoço comprido, ondulam isolados na margem do mangal. À direita o ramo do estuário dirige-se para Micaun, Chinde. Continuamos em frente, junto à margem, em expectativas frustada de sombra: embora ainda cedo, o sol fustiga. Bolas castanhas, grandes, pontuam nas árvores da margem, cortada por enseadas perpendiculares e curtas, segundo diz o Tio; avistamos ao longe, à esquerda, alguns coqueiros, bem acima do mangal; passamos o antigo acesso das pessoas à ilha, avistamos uma linha branca, na barca acostada ao “porto” atual, fazendo uma paragem muito suave junto de 3 canoas e vários homens. A ilha deserta, Iunga, de facto, não o é; houve-se, pouco distante, uma motoserra; no alto da margem, um grupo de negros concentra-se atentivamente nos visitantes; a Avó inicia o desembarque; há alguns pescadores e mais fabricantes de carvão; é grossa a pilha coberta de terra libertando fumo cinzento. Iniciam-se as explicações em Macarungo, junto à tenda grande; um grupo de 5 homens acompanha-nos e penetramos no mato. A Avó tenta orientar-se na paisagem um pouco queimada, à procura de um Cajueiro, o tal. Andamos pouco mais de 15 minutos e paramos – é aqui. Estende-se a secção de folha de bananeira, bem verde, no chão, os sacos de géneros ao lado. Vai começar o Mucuto. A avó dispõe os vários alimentos, as várias bebidas – vinho, cachaço, fanta, sumo, e inicia o desfazer fino da farinha de mandioca sobre a folha verde; vai invocando todos os nomes da antiga linhagem, à medida que o coro dos presentes bate ritmicamente as palmas e em coro sublinha cada personagem. A cerimónia dura mais de 10 minutos e no fim, bebe-se o que há e come-se o que se quer; uma pequena parte è derramada na terra, outra permanecerá sobre a folha verde. Estamos à sombra, sentados na terra coberta de erva e grandes folhas castanho amarelas e secas e as histórias antigas sucedem-se. Antigamente, havia aqui gazelas, macacos, porcos do mato, cobras enormes; as queimadas afugentaram tudo, mas se não as fizessem, não se poderia passar. Vamos passear, deparamos com plantas medicinais (raízes para lavar os dentes), árvores enormes cinzento brilhante de ninho e trepadeira, chegando à beira do mangal, muito verde, do outro lado; deparamos com a antiga localização da casa do dono, espaço não muito grande, rectangular só com capim alto; muito cuidado com o “feijão maluco”, provoca uma comichão diabólica. Está na hora de regressar e o grupo encaminha-se ligeiro para o acampamento da margem, identificando as àrvores onde outros vieram recolher ingredientes terapeuticos. A dona despede-se e instalamos-nos de novo na canoa. No regresso, sol mais quente, cruzamos-nos com uma barca cheia de carvão, 3 homens: levarão 3 dias até Quelimane; passa uma canoa carregada de “nhocas” (folhas de palmeira cortadas e entrançadas para servir de “telhas” vegetais enormes); cruzamos várias canoas ligeiras, o marinheiro recusa-se a cantar…para chegarmos de novo junto aos “padres” após 50 minutos de deslizar suave no liquido verde terra. Há ainda uma questão por resolver, aparentemente, o pagamento do remador, que não é o dono da canoa; são 30 meticais. Não tem problema. Continuamos até casa dos avós. À nossa espera está já um ótimo petisco (preparado pelo avô): pato assado – ainda sobrava uma cerveja; a conversa flui, desafios arrojados, confronto de culturas, entre português e Macarungo (dialecto de Inhassunge, parecido com Etxwabo), os familiares vão chegando, os avós brincam, as crianças observam, atentamente. O avô quer contar as estórias da história, fazendo o ponto da situação: foi Mutoa, o antepassado que tomou conta da ilha Iunga; casado com Fatiama, era empregado da Madal e foi um homem rico (“fumo”); roubou os bois do empregador e fê-los desaparecer na ilha, que nessa altura podia ser acedida a pé na maré baixa; levou também coqueiros, que lá plantou; o seu filho Custema, bisavô dos meio irmãos, teve 3 filhos: Amadeu, Afonso e Marta; o Amadeu, avô directo dos ditos, teve 3 filhos: Arcanje Amadeu Custema, Fernando Amadeu Custema, Francisco Amadeu Custema; o Afonso, teve 5 filhos: Afonso Alifanete Custema, Ana Alifanete Custema, João Alifanete Custema, Marta Alifanete Custema, Luca Luigi Alifanete Custema; e a Marta Custema Mutoa, a tia avó aqui presente, que nos guiou nesta viajem. Faz-se hora de ir apanhar a maré cheia, o avô diz que ainda è cedo, não vale a pena ir já, iremos esperar em Recamba; mas está na hora que se faz tarde e o Surf começa a bufar; grandes abraços de despedida, uma promessa de reencontro. Retomamos a falsa pista sinuosa entre os coqueiros, paramos mais à frente para levar uma mulher, seus dois filhos gémeos pequenos, sua mãe, em visita ao marido hospitalizado em Quelimane; abordamos o areal e desafiamos as lombas. Paramos no mercado para deixar o Tio que vai entregar as garrafas vazias; no Macangi, despedida do amigo, havemos de nos rever em breve; saimos de Mucupia, já depois das 14h, até à Recamba, quase uma hora de areia, lombas, regos, condução intensa. O ferry está do lado de Quelimane e vamos para “O Campino” para um refresco. O som da radio ecoa nas barracas de caniço e palha em frente. O barco chega e depois de sairem as muitas bicicletas e motorizadas faço uma manobra floreada de marcha a tràz para encaixar na ponte mal poisada no cais; vem outro carro, pequeno; aparece um terceiro, e as duas viaturas já embarcadas executam manobras de aproximação especial para fazer lugar…a sirene do barco avisa da partida, sobre fundo musical em Etxwabo. Marcha à rè, saída para os “Bons Sinais”, junto à margem direcção Este contra a maré enchente e depois Norte para Quelimane; o vento corre fresco, aliviando o sol intenso: voltámos à cidade.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Serra que Canta

Saímos de Morrumbala passando o aerodromo pela picada em direcção a Oeste, para o rio Chire, descendo alguns montes em curvas até Pinda, na planicie vasta, para falar com o Chefe de Posto primeiro, o Régulo mais à frente, solicitar o seu filho para nos acompanhar. Existem alguns Ebondeiros magestosos, agora prateados à luz do sol, dois deles cheios de pássaros enormes, brancos e negros, de pescoço comprido, habitantes do rio. É uma zona de reassentamento de deslocados das cheias, com muitas casas em tijolo, centro de saúde e escola. Fazemos uma oferta para a cerimónia e seguimos em direcção a Micaula, ao longo da margem esquerda do Rio Chire, pouco antes de chegar à sua confluência com o Rio Zambéze. Aparece um corte perpendicular à pista com cerca de 50 m de largura, aparentemente rio seco, areia e pedras miudas. O jovem relata que há mais de 10 anos surgiu durante uma noite um bicho cobra com rosto de pessoa, que inrrompeu montanha abaixo, causando caos e destruição, abrindo este largo rasto até ao rio; e que a sua esposa ou esposo, poderá surgir a qualquer momento, saindo ali ou próximo, causando grande prejuízo. A população deve estar atenta. Mais à frente, as águas quentes, sulfurosas, brotam em três tanques forrados de ondulados sedimentos ocre esverdeado, junto a ruinas agro industriais imponentes da antiga Companhia da Zambézia. As mulheres lavam as capulanas e os filhos. Raros campos de algodão já apanhado, farrapos brancos dispersos nos ramos médios dos arbustos nas margens da pista. Pouco mais de 15 km e paramos na aldeia de Munguira. Sentamos nas cadeiras à sombra debaixo da Mangueira com o Chefe de Posto, o Secretário de Posto, o Regulo, o Fumo, o Secretário de Bairro, explicamos o motivo do nosso desejo de subir à serra. Adquirem-se os produtos para a cerimónia. Designa-se o guia. Saímos às 10h e 30 minutos, sol e calor abrasador. O guia inicia um ritmo rápido, contornando o Centro de Saúde para sair da aldeia e subindo de forma mais acentuada através da floresta. Fazemos duas paragens rápidas antes de chegar ao primeiro terço, relevo marcado percebido lá em baixo. Respiração ofegante, pulsação rápida, corpo muito quente. Temos a primeira desistência. A inclinação acentua-se, as sombras são raras. Água, respiração apropriada, esforço controlado. Aparece um macaco grande a comer Massalas que foge monte acima. Cruza-se a descer uma mulher bem disposta. Primeira machamba, mais acima duas casas, uma familia alargada, um homem escava à mão um buraco para a colocação de mais um pau em nova palhota em construção. Um fruto vermelho oval com polpa granulosa doce amarga. Persiste a inclinação difícil, carreiro entre o capim alto, terra solta com palha, desliza. Os musculos começam a doer. Para cima, nem o Diabo empurra. Pequeno corgo com bananeiras, está ali a água fresca. Bebemos bastante e abastecemos as garrafas. Carreiro estreito em falésia marcada, rochas e pedras grandes. Nova machamba, milho, mandioca, amendoim, mais uma casa um homem. Passamos o segundo colo. Atravessamos o vale e aparece então ao longe, pequenina, a antena no horizonte alto. Carreiro sinuoso, muita pedra, zona queimada, faz-se longo, mas ao fim de 3 horas, chegamos a Saikuni, também nome do Fumo local, disciplo do Regulo Sapanda. Lindos, minusculos, vermelhos e doces tomates abundam inexplicavelmente entre as pedras médias. Uma tenda de paus e plastico, vazia, com uns restos de fogo e lenha, dois tachos, uma mochila, um cartão grande dobrado no chão. Comemos tomates deliciosos, bebemos água, mastigamos umas bolachas. Quando chega o guarda das 4 antenas, vem de arco e flechas – atira bem longe, serve de arma de caça para coelhos, galinhas do mato e gazelas. Rimos de histórias da construção das antenas, falamos sobre os vários locais da serra – o pico das cobras, a origem do canto. Temos amendois e bolachas ainda para partilhar. A pouco mais de mil metros de altitude, apesar do fumo das inúmeras queimadas dispersas em todo o horizonte, avistamos a Oeste o Rio Zambéze, limitando Tete com Sofala, onde conflui ao longe a Sul o Chire, limitando a Zambézia. A Norte, as silhuetas das casas e os reflexos dos telhados de chapa da Vila de Morrumbala, sede do Distrito. A Sudeste, muito ao longe, os picos rochosos de Mopeia. Uma hora de descanso deve chegar, despedimos-nos e iniciamos a descida. Bebemos e abastecemos de água no mesmo sítio. Passamos a família que permanece tranquilamente sentada à sombra. A miuda dos seus sete anos no alto dos ramos da mangueira colhe alguns frutos, aparentemente muito verdes. Saudamos e seguimos monte abaixo. Primeira paragem após uma hora, com os joelhos de manteiga. Sentar, esticar as pernas. Temos pressa. Para baixo todos os santos ajudam. Mantemos um ritmo rápido, esforçado, escorrega-se às vezes. Mais 45 minutos e estamos na aldeia. Foi um passeio duro, agradecemos o apoio do Regulo, Fumo e companhia, retiramos-nos satisfeitos e bem cansados. A montanha só canta em certas épocas do ano. Voltaremos!

domingo, 11 de outubro de 2009

Preguiça de Domingo

O vento sopra forte do mar disfarçando o calor da estação. Da ponta Este da marginal, o Bom Sinais abre-se largo em dois ramos principais em direcção ao Índico. Ao longe, as copas altas dos coqueiros emergem sobre o verde denso do mangal. Algumas canoas deslizam suaves, a doca seca a Norte, boia de sinalização ao centro, duas belas cegonhas brancas na margem de matope. Em frente, abre-se outro ramo do delta e um bando de pássaros bem alinhados sobrevoa baixo sobre a superficie prateada da água. A Oeste, o sol mergulha entre nuvens de horizonte com reflexos vermelhos nas vastas superficies aquaticas do delta, razando o porto da Madal, o porto de pesca, o cais da população, o porto comercial. O último ferry atravessa de Inhassunge agora bem carregado de gente, motorizadas e bicicletas. Não tráz carros. Vários grupos espalham-se ao longo do passeio largo e litoral da rua, em conversas amenas de fim de tarde. Amigos, namorados, negócios – sobretudo indianos, muitos escolhem este local para falar ao crepúsculo. Seguindo junto à margem, aproxima-se uma canoa, lá dentro um remador transporta uma boa quantidade de grandes ameijoas acinzentadas. São para vender claro, não está caro. Passam dois taxis bicicletas ocupados e um vazio. Ao longe, um carro vira lentamente à esquerda e escutam-se as frases vivas gritadas por um grupo em campanha eleitoral. A cidade está tranquila.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Asterix

A água do mar aqui tem uma textura especial, flutuação menos eficaz e mais sensual. A temperatura acolhedora promete protecção e as ondas vastíssimas e intermitentes embalam no sono. A prata domina. Ao alto, zonas cizentas escuras enviam feixes de raios brancos em àreas próximas do mar. Ressuscitar, anfibiamente soerguer-se da maré baixa, executar os movimentos atleticos indicados, tatear as variações ondulantes e maleaveis das areias finíssimas, perscutar o horizonte na mira dos companheiros. Está a escurecer. O mais afoito, atravessou o rio vestido, refrescado…voltamos, contam-se histórias, subimos a corrente doce, chegamos ao local onde tinhamos deixado roupa e sapatos, estão a chegar mais uns 6 homens… pescadores ? caçadores ? Vindos em 2 canoas, paradas na borda do ribeiro com mais 4 pessoas, procuram o “caminho” (por àgua) para Chinde vila. São explicados, agradecem e retomam as embarcações. Começa a pingar, não muito, agora um pouco mais, ameaça. Aceleramos o regresso mas temos alguma dificuldade em encontrar a entrada certa para as dunas e espalhamos-nos para escolher o trilho. Lá está, subimos, descemos, entramos no mangal; lama e água pouco frofunda; 2 das motos estão caídas no chão – matope è lixado. Continuo rápido em frente e a pé, já os tinha sentido. Quando saio do outro lado do mangal, zunem como loucos atacando como bestas. Papulas volcanicas eclodem nos braços, punhos, coxas, pernas em comichões histaminicas! Em super rápido, tiro fato de banho, visto, cuecas, calças, meias, calço sapatos e começo a andar bem rápido, pelo carreiro de areia entre os regos das machambas, subindo até ao palmar, quase correndo. As motorizadas ficaram bem para tràz, o ar está fresco e arejado. A chuva parou e o Cruzeiro do Sul destaca-se naquele pouco azul escuro do céu. Faróis ao longe, passa uma, duas, vou na terceira. Equlibrios mirabolantes, sem queda. Um dos drivers è pouco experiente e atraza o grupo deixando a moto ir a baixo, por 3 vezes, na pista de areia funda. Chegamos no Cantinho de Chinde, verificamos o andamento do leitão assado para as 21h. Como em qualquer boa estória de Asterix, terminamos na mesa farta de alimento, cerveja, convivio e história!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Massacrado pelos mosquitos

Saímos da Vila sede de Chinde já pelas 16h 30m, 6 pessoas em 3 yamahas 125, pela pista de areia mole em direcção a Chacuma e Matilde. O condutor, eximio piloto em manobras mirabolantes, faz-se aos regos, enfrenta as inclinações, recupera equilibrios. A poucos 8 Km, sempre em zona habitada, saímos na perpendicular à esquerda, mais 2 mil metros de areia e casas, entramos no palmar. Passamos para carreiro sinuoso que sobe e desce as dunas ladeando as machambas não plantadas. Deparamos com o Mangal, carreiro estreito bem enlameado. O da frente diz que é necessário tirar os sapatos e arregaçar as calças. Penetramos na água. A derrapagem è constante, o trilho labirintico, a àgua vai ficando mais profunda. Ordem para parar, abandonar as motorizadas. Continuamos a pé com água até à cintura. Saímos nas dunas, ao longe a prata azulada do mar. No céu, nuvens cinzentas potentes batem-se com o branco. Chegamos à praia, cortada na horizontal por um ramo doce do Zambeze. A maré está baixa e os pássaros, grandes e pequenos, entretéem-se nas bordas d’água. Atravesso o ribeiro quente, 90 cm de profundidade. A areia estende-se finamente ondulada até às ondas de espuma branca regular. Andar, andar, sempre, àgua pelos tornozelos. Desisto. Está pelos tomates, mergulho.

MAINDÓ

Em Chinde, o dialecto que se fala è Maindó, aparentado com o Etxwabo e o Sena. Vejamos algumas palavras simples.
Bisso - olhos.
Bodo - joelho.
Cotomoia - tosse.
Dereto -bom.
Enzai - ovo.
Fiua - comichão.
Irido - arrepio.
Jala - unha.
Mainje - àgua.
Manda - mão.
Mimba - barriga.
Moindo - perna.
Murobue - medicamento.
Mussolo - cabeça.
Nhalo - pé.
Nhama - carne.
Numba - casa.
Oba - peixe.
Ocalau - vida.
Ocoma - gordo.
Ocua - morte.
Oladiua - tratamento.
Onda - magro.
Oudja - alimento.
Reda -doença.
Ridua - fraco.
Tovanda - forte.
Upa - dor.
Wabore - mau.
Zino - dente.

domingo, 13 de setembro de 2009

Ebondo

Fomos até Nicoadala, viramos à esquerda para Sul, em direcção a Licuari a caminho de Caia, a nova ponte sobre o Rio Zambéze. Mais à frente saimos para o mato, pista regular até Musselo Novo, ao encontro da casa do artesão. Em madeira da árvore Enungo, fabricou 4 batuques potentes, destinados a três tipos de música: Ebondo, Ialula, Marombo (música e dança que curam a doença tradicional conhecida por "reumatismo"). As peles ainda não estão bem secas e os batuques deverão permanecer ao sol ainda por alguns dias. Carregamos, pagamos, agradecemos e voltamos para Quelimane.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Batucada especial

Cerca das 21h saímos da vila sede de Inhassunge, pista de areia, viramos à esquerda e entramos no mato; floresta de coqueiros, mangueiras, capim alto, muitas outras árvores e arbustos, de quando em quando um terreiro bem liso e limpo com palhota. Alguns 6km à frente, escutamos o sibilar da música. O local chama-se Namingana, tem um telheiro grande de troncos e palha, à esquerda o grupo de Mutengo, à direita o grupo de Ebondo (cavalete com almofadas de palha, 5 batuques pendurados dois de um lado, 3 do outro, 2 batuqueiros de frente um para o outro sentados em troncos, 2 homens com ferros a percutir uma lamina de carro). Cerca de 30 pessoas estão presentes, mais de metade crianças. O pessoal vai aparecendo saindo do mato, as fogueiras estão acesas para permitir o aquecimento repetido das peles, a pouco e pouco reunem-se mais de 200 participantes. O grupo de Mutengo ainda está a preparar o quadrilatero dos 9 batuques. O grupo de Ebondo já aqueceu e o ritmo é forte. Á cabeça de um grupo que dança e canta em coro cada vez maior, estão 2 homens com uns tubos largos e compridos como tubas, por onde lançam a voz que fica estranha. A pouco e pouco, os pares organizam-se e agarram-se, muito juntos, colados uns aos outros num deambular sereno e elegante.

domingo, 23 de agosto de 2009

Iniciação

Os grupos de jovens raparigas e rapazes passam por um período de educação intensiva, antigamente durante seis meses no mato, actualmente reduzido a uma ou duas semanas por imposição do sistema educativo nacional: o "Mwali", em Etxwabo na Baixa Zambézia. Estas cerimónias são organizadas e acompanhadas por uma madrinha para as raparigas, um padrinho para os rapazes, personalidade reconhecida pelas famílias da comunidade local como detentor de conhecimentos tradicionais sobre os imperativos do comportamento social, figura exemplar: o "Mole". Actualmente, o dito e chamado "desenvolvimento", neste caso mais identificado pelos locais como crescimento económico desregulado, desorganização social pelas guerras, importação de modelos sociais ocidentais, tem vindo a contrariar aqueles ensinamentos: quatro a seis anos depois da iniciação, prematuramente e sem cumprir as regras propostas, os jovens começam a ter filhos precocemente em relações temporárias sujeitas a interesses materialistas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Céu na Terra

Nunca viram?
Olhem para cima e imaginem um céu de azul noite profunda, cheio de estrelas. Olhem para baixo, no horizonte próximo e escuro, descobrindo a imagem volátil das estrelas brilhantes; sobre a terra coberta de erva, os pirilampos voadores, vaga lumes ou caga lume, imitam o astral.

sábado, 18 de julho de 2009

Final da época das chuvas

Picado de branco pela vento do oriente, o índico de barro agita-se em figuras rupestres. Á entrada, a água, está ligeiramente fresca, logo depois adapta-se á temperatura da pele. Biliões de particulas brilhantes, douradas e prateadas, passam velozes e introduzem-se nos meandros da máquina. A música das folhas dos coqueiros alia-se ao murmurio forte do mar, desafiando a sinfonia das casuarinas. A época das chuvas está no fim, caem alguns aguaceiros de poucos minutos. O sol deita-se na floresta a oeste, em amarelos desmaiados. Inicia-se a estação do vento.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Provérbio Etxwabo

Zelu, opanguiwa: para ter uma ideia, é necessário ouvir um conselho; para progredir na vida, é preciso ouvir os outros.

domingo, 5 de julho de 2009

Músicos de Quelimane

Está fresco em Julho, tem chovido bastante, a roupa reforça-se, constipações não são raras. Dias de sol também, calor e céu azul. Comme je disais, il n'y a plus de saisons. No entanto, as noites animam-se com ritmos quentes. To get the whole sound, I accept propositions...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cacimba

Debaixo de um céu intensamente azul e profundamente estrelado, esconde-se a ameaça da noite: protecção, usar chapéu. Caso contrário, enfraquece a palavra, entopem-se as vias, amolecem as fibras...
A Via Láctea impõe-se monumento principal. O Cruzeiro do Sul evita perder o norte. Ás vezes, Orion defronta a Ursa Maior. A noite avança, os cães ladram, as folhas das palmeiras roçam ao vento, Nzu dorme no tronco do Coqueiro.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vocabulário

Os praticantes de medicina tradicional da Baixa Zambézia, tem especialidades muito diferentes.
Kumbaisa: adivinho, pessoa que se acredita possa descobrir coisas ocultas como a causa da doença, quem foi o causador da doença, o autor da desgraça, o autor da morte, onde foram ocultadas coisas roubadas, quem detém a chuva. Ritual com objectos físicos.
Proverbio Etxwabo: Kumbaisa onomukutha Mukwiri (o adivinho descobre o autor da desgraça).
Mulaula: adivinho, pessoa que pretende desvendar coisas ocultas ou futuras, descobrir quem roubou ou fez feitiço; ás vezes indica o curandeiro apto ao caso.
Exemplo: Wafema eliwe omutomeya muzogwe, mudhele mulaula kamubulile muzogweya (Uafema foi acusado de deter a chuva, mas o adivinho quando chegou não desvendou chuva nenhuma).
Sinónimos: Kumbaisa, Muliba makaga, muliba makaga manddimuwa.
Mukwiri: pessoa que segundo a crença popular, possui o feitiço e pode dar a outrém qualquer espécie de mal, ele é tido como o responsável último do mal físico e moral. Secreto.

Provérbio Etxwabo: Mukwiri kanlowa nzuwa (a pessoa que possui a força de fazer o mal não aguenta enfeitiçar o sol).
Nahana ou Namusorho: curandeira / o que trata a doença do "histerismo" (Mazoka ou Matoa). Cura atravéz dos batuques.
Provérbio Etxwabo: Maliana Nahana, okana makobwa aye, onolaba na bafu, onotxetha marhombo (Maliana é curandeira, tem os seus cestinhos com remédios, faz o sufumígio, dança o Marombo e a Zoka).
Namabaliha: parteira.
Ñganga: curandeiro, herbanário, médico que dá remédio, tendo ás vezes em conta as indicações do adivinho, utilizando escarificações, plantas e raízes, um ritual.

domingo, 7 de junho de 2009

MUSICAS DAS CARAÍBAS


Temos o tradicional, o popular, o jazz, o reagge, a salsa, o regueton e o son, entre outras. Os músicos, funcionários públicos em grupos bem compostos, percorrem as salas e os palcos dos bares do país, animando as danças mexidas e retorcidas da ilha. A cultura e a história são muito promovidas, com inúmeros museus e conjuntos arquitectónicos de significado marcante no passado recente, grandes empresas de produção e distribuição de música e espectáculos, programas de documentário na rádio e televisão frequentes e interessante, inúmeras edições e outras publicações, obras plásticas e exposições, pintura, artesanato, fotografia, vestuário design, feiras e exposições, regionais, nacionais e internacionais.

MUSICAS DAS CARAÍBAS


Temos o tradicional, o popular, o jazz, o reagge, a salsa, o regueton e o son, entre outras. Os músicos, funcionários públicos em grupos bem compostos, percorrem as salas e os palcos dos bares do país, animando as danças mexidas e retorcidas da ilha. A cultura e a história são muito promovidas, com inúmeros museus e conjuntos arquitectónicos de significado marcante no passado recente, grandes empresas de produção e distribuição de música e espectáculos, programas de documentário na rádio e televisão frequentes e interessante, inúmeras edições e outras publicações, obras plásticas e exposições, pintura, artesanato, fotografia, vestuário design, feiras e exposições, regionais, nacionais e internacionais.

EDUCAÇÃO PARA TODOS


A educação é gratuita para todos. As crianças a partir dos 3 anos já podem ir para o infantário. A escola começa aos 6 anos. Materiais escolares, livros, alimentação e transporte não custam nada. Existem muitos estabelecimentos de ensino, primário, secundário e superior, pessoal docente e auxiliar suficiente. Depois do décimo segundo ano, os estudantes que seguem estudos superiores recebem um salário. Podem tirar licenciaturas, doutorados, mestrados, até aos 35 anos. A Casa dos Avós acolhe os idosos com actividades de formação diversas. A Universidade para Todos, emite na televisão duas horas diárias de cursos á distancia, sujeitos a exame e diploma.
O nível cultural médio em geral é deveras elevado. Os Cubanos tem das mais altas taxas de esperança média de vida de todas as Américas.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O outro lado da moeda

As deslocações no país não são frequentes para a maioria, com custos elevados relativamente aos salários de 500 ou 600 pesos. E devem ser justificáveis aos agentes da autoridade, que ganham mais que os cirurgiões. A economia de duas moedas, instala injustiças. E a carne ou o peixe, nunca são baratos. Não se pode ser proprietário de uma casa, de um carro ou de uma vaca. Mas pode-se ter um cavalo. Os electrodomesticos, o vestuario, os sapatos, os produtos de higiéne estão a preços fora de qualquer economia doméstica. Não está fácil!!!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Acesso aos serviços de saúde


Em qualquer lugar, é fácil encontrar um Centro de Saúde. A entrada é livre, a informação imediatamente disponível, o tempo de espera mínimo. Os médicos são simpáticos, o serviço eficaz e gratuito, a consulta não demora. Alguns problemas de disponibilidade de medicamentos, não atingem normalmente os princípios activos mais correntes. Na maior ilha das Caraíbas...

domingo, 24 de maio de 2009

The best of



Não tem publicidade, não existe desemprego, não há pedintes, não se vêem sem abrigo. Todos tem uma casa, alimentação essencial, saúde e ensino gratuitos. A música é muito boa, o rum aprecia-se os charutos dos melhores. A população é hospitaleira, circula-se em completa tranquilidade, as praias bonitas, as cubanas lindas, o desporto nacional o baseball. País único no mundo!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sonhamos o futuro

Bem entre terra, mar e céu, a ilha estende-se por mais de 1.000 km de estrada. Sempre quente refrescada pelas brisas marinhas, anualmente atacada por furacões destruidores, tem planícies, montanhas, praias e muitas mais ilhas. A água do mar azul é límpida e a vida submarina abundante. O povo misturado entre branco e preto, muito culto, tem das maiores esperanças de vida á nascença de todas as Américas.