A Poente...

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Na Baía de Nacala!

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Luso calaico

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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Finalmente!

Tem sido deveras complicado aceder ao blog e publicar!


No mes passado, na Escola de Medicina da Universidade da Namibia, em Windhoeck, estivemos a iniciar a revisao e desenvolvimento dos Curricula dos cursos de Medicina, na UniLurio e UNASOM, no quadro do projecto MEDUNAM II.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nharungue

Em Chuabo (Etxwabo), chamam-se assim os profissionis que preparam os mortos para o enterro, tratam da cerimonia, dizem piadas e provocam os familiars...
Depois de esperar uma hora pelo açucar para o Café, o dono informa que está tudo fechado, não há açucar – nem matabicho. Visitamos o bairro dos pescadores na vila Angoche, algumas fotografias de predios meio desertos, meio inacabados, algumas boas peças arquitectonicas. Saimos em direcção a Boila, à direita para Namaponda; aqui a estrada que vai para Quinga está inutilizada, não se pode passar; mais à frente, a ponte sobre o Rio Metomode caiu e temos que passar na água; a tracção está ligada e passo sem problemas, com cuidado; continuamos até Liupo e viramos na primeira à direita para Quinga; aldeia pequena, não há onde comer ou dormir; o Sr. José Manuel oferece um quarto e oferece-se para cozinhar; a estrada que está no mapa e que liga Quinga a Mogincual parece estar em más condições, o nosso informante refere que podemos não conseguir passar; vamos pensar o que fazemos e seguimos uns 3 km em direcção à Praia; deparamos com uma casa no alto da duna; o acesso à praia é por um caminho a direito, que desce a duna íngreme, com muita areia solta; penso que será difícil para subir; entramos na casa e perguntamos se existe outro acesso à praia; um homem diz que sim e oferece-se para nos conduzir; entra no carro, seguimos um pouco para Norte e começamos a descer; areia, já em baixo, outra duna íngreme, mais pequena, areia muito solta; o Surf porta-se bem; paramos e damos 20 Mt ao guia que regressa a pé; vamos petiscar o que trouxemos, tirar umas fotografias; em frente à praia, um rio paralelo ao mar onde alguns pequenos barcos à vela e a motor fazem a entrada para o interior; não tomamos banho e voltamos à viatura; subida dificil, carro em 4 altas, quase parou na subida, mas conseguiu. Regressamos a Liupo. Decidimos então ir para Mogincual, onde haverá sítio para dormir, após cerca de 60 km de pista razoável. Logo à entrada está a Casa de dormidas, comida não tem; andamos 3 km até ao centro da Vila e fazemos compras no Mercado (arroz, peixe, cerveja, coca-cola, óleo e cebola); regressamos à casa de dormidas e a Mercia inicia o jantar às escuras, no fogão a carvão; aparece um sul africano e um japonês, parecem à procura de sítios turísticos de praia para investir; a Mercia ensina o cozinheiro deles (que de facto sabe muito pouco de cozinha); vamos-nos rindo; o jantar está muito bom e ficamos ao serão em amena cavaqueira; nisto começa a chover, pesada tropical. Cama, um calor imenso, não há energia para ventoinha (tem algumas lampadas com energia solar).

Lobolo, inicio

- Mwâlelo: remédio para produzir mais, atraindo para a própria machamba os produtos agrícolas das machambas dos vizinhos.


- Mulimelo: remédio considerado normal e comum, misturado com as sementes, para obter uma boa colheita. (mas em prática, é ainda um Mwâlelo de defesa, contra a possibilidade do Mwâlelo de ataque).”



Elia Ciscato, Introdução à Cultura da Área Makhuwa Lomwe, Clássica Artes Gráficas, Porto, Portugl, 2012.

Domingo, levantei-me às 6. Saí com mochila e pau no Surf e às 6h 30 estava no largo de Marrere, em frente ao Hospital, a pegar no Augusto António. Saimos pelo norte até à primeira principal à esquerda, caminho quase sempre bom de areia, um pouco estreito, 3 passagens de ribeiros agora quase secos, e chegamos até à encosta da Serra de Muhito: 30 min de caminho, 15 km. Preparamos-nos para a subida e toca a largar encosta acima; são 7h mas já está calor; mato meio denso, árvores grandes, vamos sem carreiro, capim forte meio queimado, flores de cores muito vivas; depois do primeiro penedo, pequeno vale, muita pedra solta, grande e pequena; recomeçamos a subir, apanhamos antiga machamba e logo depois um carreiro íngreme; não longe ouve-se o bater de alguém que corta madeira; passamos um pau bom, cortado e descascado, a secar; transpiração é muita; sai uma galinha do mato a voar por cima de nós; mais um pouco e atingimos o primeiro colo. Paramos para beber água. Á esquerda, no próximo monte (no principal dos 3 picos), afigura-se uma mulher gigante. No vale em baixo, algumas machambas, poucas casas. Retomamos para o cume à nossa direita (a norte) e deparamos com uma machamba já semeada de milho e logo a seguir mais acima uma palhota em construção (os paus que definem a estrutura). O mato aqui é mais denso, muito bambo e aparecem novas flores (uma parecida com o colchique), borboletas a acasalar e escaravelhos vermelhos; passam 2 pombos bravos. Subimos um penedo liso, passamos uma árvore estranha e estamos no cume, após 2 horas de subida puxada. Paisagem infinita, Nampula muito ao longe – quase não se vê, montanhas por todo o lado, uma luz prateada ofuscada por um ligeiro nevoeiro enfumado. Um vento fresco extremamente agradável! Sentamos-nos à sombra para comer umas bolachas e beber água; vamos falando; árvore boa para madeira, umbila; árvore boa para tratar as constipações, ferver a casca e misturar um pouco de cinza; árvore descascada, para fazer cordas. Com os binoculos faço o scan aos pontos cardeais: uma picada a oeste; no vale em baixo vê-se roupa pendurada numa casa mas não se vê ninguém; a norte o segundo cume da serra, mas separado do nosso por um profundo vale. Passam andorinhas. Após uma horita de descanso, retomamos o mesmo percurso para o regresso; serão mais 2 horas a decher, sempre com cuidado e sem pressa (para baixo todos os santos empurram, para cima nem o diabo ajuda), passamos uma mangueira e apanhamos 2 madurinhas; uma antiga machamba, com enormíssimas plantas de mandioca (5 m); algumas bananeiras, sem frutos; massala, outro fruto desconhecido, passa um cão, sem hesitações e sem coleira, como se fosse dispachado ao seu destino. Aqui as pequenas flores vermelho vivo sinalizam o horizonte próximo, enquanto as formas graníticas elaboradas limitam a perspectiva visual. No útimo relevo, perdemos a localização do carro, andamos um pouco, espreitamos a sul – não parece, retomamos a norte, volta a passar o mesmo cão; seguimos o trajecto do mesmo; abordamos a primeira casa; uma mãe de 6 filhos escolhe os grãos de milho do ano passado, ao mesmo tempo que dá de mamar; a filha mais velha ajuda; o marido diz que o carro está mesmo ali ao lado e vai apanhar mangas para nos oferecer; 2 de conversa e retomamos o veículo, não sem que eu tenha oferecido um pacote de caixas de fósforos ao senhor, e feito uma “grande necessidade”! O regresso é escorreito, boa música; paramos na ponteca do Rio Miaua para tirar umas fotos, 5 raparigas fogem a correr! Depois dizem adeus, de longe. Nos cruzamentos, grupos de mulheres vendem e bebem bebidas fermentadas (de caju -  cabanga e de farelo de milho). Só paramos no mercado de Marrere, ele para comprar pão (dei-lhe 70 paus) eu pepino, limão, castanha, cigarros. 6 horas de viajem e chego a casa. Descanso!

Perto da Mourela!

No Hotel Rural de Mourilhe, com o meu grande e primeiro amigo de Barroso, Padre Antonio Lourenco Fontes!
 A minha querida amiga Maria Carvalho, com um trabalho de homenagem a Mulher Barrosa!

Portus Cale

































Em Junho passado, tirei um tempo de ferias na Caravela de Granito Encalhada, coisa que ja nao me acontecia ha muito tempo: visitar a mae e a familia, os amigos, um scan completo a paisagem de Sul a Norte, costa e interior. Muito vos diria...

domingo, 28 de julho de 2013

Mulher Barrosã

Transumancia de placas

Tem sido difícil aceder, do outro lado da fractura digital - dois mundos, muitas realidades, só uma raça. Início do romance, 30 anos de multidão. Depois da visita à Caravela de Granito Encalhada, confirmo a vitalidade de meus amigos e amigas, expulsos dos marujos desnorteados ou dos oficiais amotinados. O hardware está excelente, o software com muitos worms! A geomância expulsiva tem um desígnio místico - mitológico? Hermetismo deslocado...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Christmas

Saí ás 6 com céu nublado. Muita lama nos primeiros 30 km em reabilitação, depois muitos buracos até ao rio Ligonha e a ponte para a Zambézia, a partir daí um piso ótimo até Mocuba, com paragem em Alto Molocué, Nampevo para amendoin e limão. Em Mocuba enchi o depósito (estava a metade), deixei os caras na BG, encontrei o Nelson no BIM, passámos na casa dele para levar bebidas e saimos para Lugela ás 13h. A estrada está má, uma hora, compra galinha, encomenda no Murima ao cozinheiro, visitamos o alojamento turístico em construção e saimos para Tacuane. Pista estreita, sobe e desce, esquerda direita, vai subindo, 30 km. Em frente ao CS de Tacuane, tomar a esquerda: as subidas e descidas e as curvas acentuam-se, a floresta cresce e densifica-se, o relevo torna-se dominante. Mais uns 15 km, muito a subir, atravessamos uma aldeia onde perguntamos, um pouco mais á frente à direita, terá uma cancela. Prosseguimos e paramos na cancela fechada a 2 km. Paramos e vamos à procura do guarda na floresta de chá – estamos na antiga companhia do chá Lugela: casas antigas, construções enormes, instalações agrícolas e fabris arruinadas, o monte Mabu por cima, grandes espaços, árvores gigantes e particulares; em curso duas novas plantações de citrinos. Encontramos 2 pessoas, cumprimentamos, explicamos, e um vai nos abrir a cancela; mas parece que não se pode subir muito, cairam vários troncos com as chuvas. Vamos ver. Começamos a subir uma pista dura penetrando a floresta muito escura, quase parece de noite em alguns troços; a densidade e a dimensão das árvores arbustos de chá é incrivel. Um primeiro tronco, fino e ajeitado, oblicuo à direita e passo por cima. Mais acima, uma árvore enorme, muito ramos, tronco grosso; mas partiu ao cair; há maneira de afastar o cume para o carro poder sair á direita, lado do precipício, e passar; o Nelson quebra e afasta alguns ramos, dirige a manobra: subo a borda à direita, e o carro descaiu para o mesmo lado, avanço entro em frente, roda da esquerda cai numa vala, derrapa; marcha atráz, nada; marcha à frente, nada; engato as 4 em lentas; um pouco para tráz, mais rápido para a frente, está a andar e retomo a picada. Vamos devagar e não longe encontramos um novo tronco, este enorme, inamovível. Manobra lenta e delicada para conseguir dar a volta ao carro em poucos metros! Mas ok. Toca a andar a pé, sempre a subir, passo ligeiro; mais á frente um velho, com uma rede, um miudo (também) e uma velha (com rede e uma gazela pequena ás costas) passam rápidos por nós, pergunto se posso tirar foto, não tem problema. Mais à frente, um rapaz explica-nos o desvio à direita para a sua aldeia e a direcção da casa do director; em troca da boleia de regresso para a aldeia que passámos, vai acompanhar-nos à casa do director. Passamos outras casas, 3 jovens; muitos cogumelos, está fresco; numas árvores frondosas a 100 m os macacos divertem-se; lindas borboletas, lindas flores. E saímos da rua à esquerda por um atalho, entre bambu, bananeiras, chá, aparecem novos frutos, enormes, tipo fruta pão branca ou amarela. Chegamos a uma pequena plataforma a meia encosta, o cume do monte Mabu espreita por cima. A casa de arquitectura inédita de redondos contempla paisagem grandiosa, envolvida num universo de plantas exóticas e árvores belíssimas. Os pássáros e insectos dominam o fundo sonoro. A casa está bastante arruinada, mas poderia servir de ponto de apoio para a subida. Resta-nos saber se não há outro acesso que nos poupe alguns destes 500 m verticais. O sol já desce e nós temos que fazer o mesmo. Let’s go. Vou tirando algumas fotografias e ficando para tráz; as botas já não estão adaptadas – palmilhas ! – e tenho os pés, dedos já a doer. Retomamos o carro e ao chegar ao complexo principal é noite cerrada. Agradecemos, o guarda vai nos abrir e fechar a porta. Está a choviscar. Retomo a pista, deixamos o moço na aldeia, outro informa que quando quizermos subir o Mabu temos que falar com aquele, um outro, o chefe do mabu, sentado numa banca do outro lado da rua. Faço rápido até Tacuane, curva contra curva, sobe e desce (mais) e depois até Lugela; quando chegamos ao Murima está um grupo de amigos, bebemos uns copos, contam claro, as estórias dos feitiços e magias: debatemos muito e rimos bastante. Logo a seguir, sai a galinha assada, com chima; nada mal. Mais um JW Red e opto por continuar até Nicoadala, são 21h e estou em boa forma. Seguimos para Mocuba, passando antes na nova casa / quinta, em construção; com boa música, a estrada é menos longa e na ponte já estão a dormir e não cobram, deixo o brother em casa e saio da cidade. Ligo o piloto automático e inesperadamente chego a Nicoadala, em menos de hora e meia. É o Custema que acorda, descarrego tudo e deito-me. Longo dia!

Nature

Enfim, já me tinham dito. As mangas caem por toda a parte, formigas imagino, constroem torres tubulares de vários centimetros de altura e milimetros de diametro; os artropodes que se veêm em várias situações, são enormes; há 3 dias uma concentração de libelulas nocturnas acastanhadas claras; escaravelhos negros muito potentes; louva-a-deus verde brilhante; nuvens de mosquitos zumbindo ao escurecer e ao amanhecer.

Quase um mês depois...

Finalmente, a minha barba “peixes”, está a incomodar.me: grande à esquerda, grande à direita, rala ao centro. Não há centro? Ou è um buraco negro?

domingo, 13 de janeiro de 2013

Profissionais, especialistas, magos, médiums, xamãs

- Mwâlelo: remédio para produzir mais, atraindo para a própria machamba os produtos agrícolas das machambas dos vizinhos.


- Mulimelo: remédio considerado normal e comum, misturado com as sementes, para obter uma boa colheita. (mas em prática, é ainda um Mwâlelo de defesa, contra a possibilidade do Mwâlelo de ataque).

- Alipa nivuwo: os que possuem o nivuwo, remédio muito especial que contém uma parte do corpo de uma criança, etc., colocado no celeiro ou numa panela, ao pé de uma árvore, e com o qual se toma banho, para não morrer, para enriquecer.

- Anamutxutxa: homens ou mulheres, que preparam “filtros amorosos” de vários tipos.

- Mutxoka: é um mukhwiri “arrependido”, que aceitou tornar-se neutralizador dos seus ex-colegas, depois de ter sido “ritualmente tratado”. Este tratamento consiste em “limar os dentes” do ex-devorador.

- Mukhwiri: bruxa/o. Asocial e egoista; intrínseco e completamente negativo (o “desordenado” número um). A sua acção, em relação às pessoas, é qualificada pelo instinto de devoração: é devorador, comedor de carne humana, é a grande causa da mortalidade das pessoas (especialmente da mortalidade infantil), das doenças persistentes e dos desastres inexplicáveis. Os seus moventes são sempre o ciúme, a inveja, o egoísmo, o ódio e a ambição. O seu okhwiri, o instinto maligno que possui e guia o mukhwiri, provém da nascença, no sentido de que lhe foi “lançado”, com muita probabilidade, na altura do seu nascimento (do parto).

- Namakhurumela: pessoa possuída por um espírito mau (não de um verdadeiro antepassado), que faz mal ao próprio interessado e faz mal a todos aqueles que ele odeia.

- Nahavara: outra figura de mukhwiri com leopardo ou leão ao seu serviço.”
Elia Ciscato, Introdução à Cultura da Área Makhuwa Lomwe, Clássica Artes Gráficas, Porto, Portugl, 2012.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Serra de Muhito

Domingo, levantei-me às 6. Saí com mochila e pau no Surf e às 6h 30 estava no largo de Marrere, em frente ao Hospital, a pegar no A.. Saimos pelo norte até à primeira principal à esquerda, caminho quase sempre bom de areia, um pouco estreito, 3 passagens de ribeiros agora quase secos, e chegamos até à encosta da Serra de Muhito: 30 min de caminho, 15 km. Preparamos-nos para a subida e toca a largar encosta acima; são 7h mas já está calor; mato meio denso, árvores grandes, vamos sem carreiro, capim forte meio queimado, flores de cores muito vivas; depois do primeiro penedo, pequeno vale, muita pedra solta, grande e pequena; recomeçamos a subir, apanhamos antiga machamba e logo depois um carreiro íngreme; não longe ouve-se o bater de alguém que corta madeira; passamos um pau bom, cortado e descascado, a secar; transpiração é muita; sai uma galinha do mato a voar por cima de nós; mais um pouco e atingimos o primeiro colo. Paramos para beber água. Á esquerda, no próximo monte (no principal dos 3 picos), afigura-se uma mulher gigante. No vale em baixo, algumas machambas, poucas casas. Retomamos para o cume à nossa direita (a norte) e deparamos com uma machamba já semeada de milho e logo a seguir mais acima uma palhota em construção (os paus que definem a estrutura). O mato aqui é mais denso, muito bambo e aparecem novas flores (uma parecida com o colchique, diectamente a sair do chão em viojeta e branco), borboletas a acasalar e escaravelhos vermelhos; passam 2 pombos bravos. Subimos um penedo liso, passamos uma árvore estranha e estamos no cume, após 2 horas de subida puxada. Paisagem infinita, Nampula muito ao longe – quase não se vê, montanhas por todo o lado, uma luz prateada ofuscada por um ligeiro nevoeiro enfumado. Um vento fresco extremamente agradável! Sentamos-nos à sombra para comer umas bolachas e beber água; vamos falando; árvore boa para madeira, umbila; árvore boa para tratar as constipações, ferver a casca e misturar um pouco de cinza; árvore descascada, para fazer cordas. Com os binoculos faço o scan aos pontos cardeais: uma picada a oeste; no vale em baixo vê-se roupa pendurada numa casa mas não se vê ninguém; a norte o segundo cume da serra, mas separado do nosso por um profundo vale. Passam andorinhas. Após uma horita de descanso, retomamos o mesmo percurso para o regresso; serão mais 2 horas a decher, sempre com cuidado e sem pressa (para baixo todos os santos empurram, para cima nem o diabo ajuda), passamos uma mangueira e apanhamos 2 grandes e madurinhas no chão; uma antiga machamba, com enormíssimas plantas de mandioca (5 m); algumas bananeiras, sem frutos; massala, outro fruto desconhecido, com desenhos geométricos a verde, passa um cão, sem hesitações e sem coleira, como se fosse dispachado ao seu destino. Aqui as pequenas flores vermelho vivo sinalizam o horizonte próximo, enquanto as formas graníticas elaboradas limitam a perspectiva visual. No útimo relevo, perdemos a localização do carro, andamos um pouco, espreitamos a sul, o sol queima sobre o granito liso – não parece, retomamos a norte, volta a passar o mesmo cão; seguimos o trajecto do mesmo; abordamos a primeira casa; uma mãe de 6 filhos escolhe os grãos de milho do ano passado, ao mesmo tempo que dá de mamar; a filha mais velha ajuda; o marido diz que o carro está mesmo ali ao lado e vai apanhar mangas para nos oferecer; 2 de conversa e retomamos o veículo, não sem que eu tenha oferecido um pacote de caixas de fósforos ao senhor. O regresso é escorreito, boa música; paramos na ponteca do Rio Miaua para tirar umas fotos, 5 raparigas fogem a correr! Depois dizem adeus, de longe. Nos cruzamentos, grupos de mulheres vendem e bebem bebidas fermentadas (de caju -  cabanga e de farelo de milho). Só paramos no mercado de Marrere, para comprar pão, pepino, limão, castanha. 6 horas de viajem e chego a casa. Descanso!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Centros

Saí às 15. Reserva Cosmobiológica de Marrere: duas horas de visita inspirada. Céu muito azul, está calor e o verde das árvores é brilhante. Abordei pelo Norte, contornando a nascente. Retomei uma zona, onde já tinha passado várias vezes, sem nunca ter notado nada de especial; nisto, um sinal – ondulação vertical no vento, junto a um relevo; aproximo-me e logo aparecem os outros sinais, tecidos brancos e vermelhos pendem em pontos estratégicos dos ramos dos arbustos e árvores; no centro, um pequeno penedo quase esférico; o local principal, bem à sombra, numa estreita passagem norte-sul, entre um penedo com uma árvore de raízes extraordinárias em adesão total (a Oeste) e um murmuche antigo com um velho tronco de árvore coberto de verde (a Este). Este é sem dúvida o lugar de culto principal do Penêdo sagrado. O murmuche umbigo do mundo, aliado à enorme árvore sinérgica com o penedo, constituem símbolos e realidades principais da religião tradicional. Não muito longe, embora sem ver ninguém, ouve-se uma voz masculina em cadência macua: aleluia, aleluia! Guardo um tempo de reflexão sobre o poder da geomância. As primeiras chuvas já fizeram efeito: o mesmo tipo de arbusto, um ao lado do outro, apresentam folhas de três cores contrastadas: o vermelho vinho vivo, o castanho dourado, o verde puro. Começo a subir na diagoal, rumo a sul, pela rocha lisa, até se tornar impossível andar pelo declive extremo; a cor torna-se negra em faichas verticais, talvez pelo efeito das águas correntes das chuvas? Subo a pique já na extremidade sul; passa uma rapina de envergadura, mal mexendo as asas, subindo lentamente e desaparecendo ao longe; os piáres dos pássaros e insectos vão variando; um passarito de pescoço vermelho acastanhado e asas negras, tipo andorinha, poisa na árvore em baixo; chegam outros dois e levantam os três rápido para baixar até perder de vista. Sento-me um pouco, á sombra; está um vento fresco maravilhoso; aprecio a paisagem; passa um lagarto grosso, castanho vivo e azul. Subo mais um pouco, nem sinal de cobra, apesar dos muitos buracos e nichos convidativos; vou chegando ao cume. A norte, avista-se o rochedo da última viajem; reconheço os outros relevos a nordeste; os horizontes são vastos: a oeste, uma linha de “Iselbergs” imponentes, interrompidos pela serra almejada, estende-se de sul a norte até perder de vista; a este, outra linha de relevos, mais muito mais escassos e menos imponentes; passo ao cume assinalado (sem pretender escalar desta vez), contornando a nascente: saltam dois animais peludos, cinzento e branco, sem rabo, cerca de 40 cm de tamanho; um desaparece logo, um fica a olhar para mim, longamente sem se mexer, meio abrigado atráz de uma pequena rocha, junto ao penedo e local secundário de Mucuto, enquanto eu vou tirando calmamente as fotografias. Retomo sul e oeste, abordando os relevos de meia encosta, enquanto o sol bate. A rapina jovem, talvez pelo calor ou pela presença humana, não dá sinal; impossível localizar o ninho. Em frente, não muito longe da linha de água, por baixo de uma grande árvore, um cemitério familiar. Vou andando e um pouco mais abaixo alguém esteve a descascar castanha de caju com o fogo; as mangueiras estão cheias de mangas, ainda verdes, e os cajueiros nesta fase, mostram muitas castanhas, ainda com o fruto pequeno. Circulo na vertente poente deparando com uma árvore naturalmente quase negra, agora sem folhas, brilhando ao sol como se fosse metálica. As uniões rocha-árvore – cinzento e prata, são esculturas elaboradas, simbióticas de vida e morte. Um pouco mais e estou práticamente no nível do Campus. Não se vê ninguém.

Do outro lado da fractura digital

- Mwâlelo: remédio para produzir mais, atraindo para a própria machamba os produtos agrícolas das machambas dos vizinhos.


- Mulimelo: remédio considerado normal e comum, misturado com as sementes, para obter uma boa colheita. (mas em prática, é ainda um Mwâlelo de defesa, contra a possibilidade do Mwâlelo de ataque).”



Elia Ciscato, Introdução à Cultura da Área Makhuwa Lomwe, Clássica Artes Gráficas, Porto, Portugl, 2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Lobolo, inicio

Surprise

Em novo ponto de acesso, consegui finalmente reentrar no blog!

domingo, 23 de setembro de 2012

“The chief challenge facing the analyst of contemporary Africa is to explain how the continent can be both modern and undeveloped – that is, what modernization might mean in a context where there is no development as it is normally understood in the West.”

Patrick Chabal, Africa Works, Disorder as political instrument, Africam Issues, 1999, página 144.

Comunitarismo?

“We think it more profitable to analyse the anthropological evidence for existing, and crearly enduring, mentalities which are relevant to the politics of Africa. Of these we would stress fatalism, understood as a rational response to the huge degree of uncertainty faced by most of the continent’s population, and the primacy of the collective over the individual, itself the outcome of a realistic appraisal of what constitutes the best guarantee of survival in the face of a perennially threatening outside world.”

Patrick Chabal, Africa Works, Disorder as political instrument, Africam Issues, 1999, página 130.

Mogincual

Saimos da pensão depois do pequeno almoço e do pagamento do quarto (350 Mt mais 50 Mt para o apoio do cozinheiro), para levar as garrafas vazias à barraca da vila e visitar a Praia de Mogincual; cerca de 7 km de pista de areia, subimos a duna e aparece uma paisagem magnífica, de rio paralelo ao mar com uma língua de terra com casuarinas; o caminho não deche para a praia, mas leva-nos até ao rio, um pouco mais a Sul; um barco grande em construção, outro a ser pintado, estão vários pescadores; está o carro do sul africano com o japonês; não tenho mais bateria no aparelho de fotografias; não apetece tomar banho no rio, no meio do mangal; regressamos a Liupo, deixando depois do rio Mogincual, junto a uma “loja”, uma estrada à esquerda que vai “directa” (?) à praia seguindo depois para Quinga; em Liupo paramos para tomar um sumo na bomba de gasolina, que não tem combustivel. Começa a chover e fechamos “o descapotavel”; a X desiste da condução, está cansada; retomo a pilotagem até Corrane; pista má, muitos buracos perigosos, muita tola ondulada; a chuva agrava-se, o caminho está péssimo com muita lama escorregadia; a pouco e pouco vamos andando e chegamos a Nampula (com 580 km), super enlameada, na saída de Angoche; aqui a estrada está um verdadeiro caos de lama e buracos. Chegamos ao JFS.

sábado, 1 de setembro de 2012

Costa Sul de Nampula

Depois de esperar uma hora pelo açucar para o Café, o dono informa que está tudo fechado, não há açucar – nem matabicho. Visitamos o bairro dos pescadores na vila Angoche, algumas fotografias de predios meio desertos, meio inacabados, algumas boas peças arquitectonicas. Saimos em direcção a Boila, à direita para Namaponda; aqui a estrada que vai para Quinga está inutilizada, não se pode passar; mais à frente, a ponte sobre o Rio Metomode caiu e temos que passar na água; a tracção está ligada e passo sem problemas, com cuidado; continuamos até Liupo e viramos na primeira à direita para Quinga; aldeia pequena, não há onde comer ou dormir; o Sr. José Manuel oferece um quarto e oferece-se para cozinhar; a estrada que está no mapa e que liga Quinga a Mogincual parece estar em más condições, o nosso informante refere que podemos não conseguir passar; vamos pensar o que fazemos e seguimos uns 3 km em direcção à Praia; deparamos com uma casa no alto da duna; o acesso à praia é por um caminho a direito, que desce a duna íngreme, com muita areia solta; penso que será difícil para subir; entramos na casa e perguntamos se existe outro acesso à praia; um homem diz que sim e oferece-se para nos conduzir; entra no carro, seguimos um pouco para Norte e começamos a descer; areia, já em baixo, outra duna íngreme, mais pequena, areia muito solta; o Surf porta-se bem; paramos e damos 20 Mt ao guia que regressa a pé; vamos petiscar o que trouxemos, tirar umas fotografias; em frente à praia, um rio paralelo ao mar onde alguns pequenos barcos à vela e a motor fazem a entrada para o interior; não tomamos banho e voltamos à viatura; subida dificil, carro em 4 altas, quase parou na subida, mas conseguiu. Regressamos a Liupo. Decidimos então ir para Mogincual, onde haverá sítio para dormir, após cerca de 60 km de pista razoável. Logo à entrada está a Casa de dormidas, comida não tem; andamos 3 km até ao centro da Vila e fazemos compras no Mercado (arroz, peixe, cerveja, coca-cola, óleo e cebola); regressamos à casa de dormidas e iniciamos o jantar às escuras, no fogão a carvão; aparece um sul africano e um japonês, parecem à procura de sítios turísticos de praia para investir; ensinamos o cozinheiro deles (que de facto sabe muito pouco de cozinha); vamos-nos rindo; o jantar está muito bom e ficamos ao serão em amena cavaqueira; nisto começa a chover, pesada tropical. Cama, um calor imenso, não há energia para ventoinha (tem algumas lampadas com energia solar).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Contra globalização...




“Following the independence of most African countries in the 1960s, and within the context of the ideological rivalry engendered by the Cold War, the early years of development theory involved an extremely mechanical transposition of concepts fashioned in respect of very distinct Western or Eastern settings. During at least two decades, so-called experts merely transferred their blueprints to an environment whose historical, social and cultural specificities they hardly knew, or even cared to discover.”
“It ought now to be possible to give attention to cultural factors without giving the slightest credence to those who believe in the innate inferiority of Africans”.

Patrick Chabal, Africa Works, Disorder as political instrument, Africam Issues, 1999, página 126, 128, 129.

domingo, 18 de março de 2012

Actualização sobre escravatura

“Os escravos do século XXI não precisam ser caçados, transportados e leiloados através de complexas e problemáticas redes comerciais de corpos humanos. Existe um monte deles formando filas e implorando por uma oportunidade de trocar suas vidas por um salário de miséria. O “desenvolvimento” capitalista alcançou um tal nível de sofisticação e crueldade que a maioria das pessoas no mundo tem de competir para serem exploradas, prostituídas ou escravizadas.”

Luther Blissett.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Feitiçaria, sociedade e política

“Witchcraft, society and politics

It is often overlooked by politics analysts that one of the primary concerns of witchcraft has to do with what we in the West would call therapy. Although much work focuses on the more aspects of this healing process, witchcraft has also been instrumental in providing for psychological or social disorders associated with the modern post-colonial world.”

Patrick Chabal, Africa Works, Disorder as political instrument, Africam Issues, 1999, página 66.

Medicina Africana

“A medicina africana não só tem valor acrescentado pelo uso das plantas para a cura, mas sobretudo pela combinação que faz com a psicoterapia e com os conhecimentos variados da anestesia, vacinação e técnicas de cirurgia. Os bantu tinham há já muito tempo a sua própria aspirina usando uma planta que contém ácido salicílico.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 246.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

“Universidade como espaço de intersubjectivação

O objectivo final é o de estabelecer uma cadeia circular de legitimação dos saberes na qual nos extremos estão as duas tradições de práticas académicas, nomeadamente a formal / moderna (predominantemente escrita) e a local / tradicional (predominantemente oral). A legitimação e a validade do conhecimento produzido, seja no contexto institucional moderno, na base da cultura escrita, seja no contexto institucional tradicional, na base da cultura oral, é feita num espaço coabitado por ambas comunidades epistémicas sobre temas e problemas comuns. Como participantes, os detentores dos pontos-de-vista e dos saberes tradicionais locais ver-se-ão partilhando benefícios para a manutenção e desenvolvimento do seu capital cultural e de conhecimento. O desafio é desenvolver na universidade fóruns e mecanismos de levar o conhecimento localmente legitimado para fóruns mais abrangentes de legitimação global. Os fóruns científicos nacionais e internacionais, devem abrir as suas portas para os portadores dos conhecimentos narrativos dos seus colegas pesquizadores do contexto locail / tradicional. Estes devem ser convidados a expor as suas ideias e conhecimentos no seio da comunidade científica global, numa ronda de diálogo circular.”
José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 243.

“A segunda crítica (construção) do processo de vigilância epistemológica relaciona-se com a necessidade de o intelectual africano garantir que a sua produção seja responsável em relação às comunidades epistémicas locais, libertando-se dos preconceitos culturais para adoptar uma perspectiva afrocêntrica.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 242.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Interculturalidades

“Cultura é entendida aqui como a segunda natureza humana, isto é, o processo da criação de formas de conhecimento, das técnicas e de formação de habilidades que visam garantir que o ser homem possa viver, procriar-se e educar aos seus sucessores, enquanto seres humanos. Entendida desta maneira, a cultura é a experiência crítica que o homem faz com a Natureza circundante e com os outros seres humanos e sociedades. A interculturalidade constitui o conjunto de atitudes e predisposições necessárias para um envolvimento mútuo de dois ou mais sujeitos na troca das suas experiências subjectivas, críticas e por si vivenciadas (enquanto indivíduo ou grupos sociais) com os outros: um processo de formação de atitudes e predisposições nos sujeitos por forma a torná-los aptos para o debate entre as culturas.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 220.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Conhecimento e Sabedoria

“Ciência é conhecimento organizado, enquanto sabedoria é vida organizada. Aqui estão claros os pontos de cruzamento e do distânciamento entre o cientista e o sábio. O ponto do encontro é a organização, ou seja, ambos pensam a vida ou o conhecimento de uma forma estruturada. A sua preocupação é organizar a vida e o conhecimento (sobre ela). O que os distancia é o objecto da sua organização: enquanto um está mais preocupado pelo conhecimento o outro esta mais preocupado pela vida.”

José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 212.

Filosofia Africana

As liberdades que condicionam a existência de uma filosofia crítica africana são cinco:



A necessidade da filosofia africana se libertar do essencialismo ou do unanimismo (etnofilosofias). A segunda dimensão da qual a filosofia africana deve livrar-se, a religião (a religião faz profecia e a filosofia utopia). A terceira libertação, do debate tradicionalista (poluido pelo misticismo, e concentrar-se na busca de respostas a assuntos que dizem respeito ao futuro). A quarta do mito da oralidade, através do resgate da oratura. A quinta, libertar-se do problema linguístico como condicionante para o desenvolvimento político, social, económico e intelectual do continente.

José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 209.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Eco ser ?


“Goduca insiste que existe uma unidade na forma de conceber o mundo dos Africanos, assente em cinco princípios. O primeiro princípio sublinha que a responsabilidade individual pela interioridade é uma jornada para a auto-purificação: o caminho para uma paz interna, consigo e com os outros. O segundo princípio é a responsabilidade colectiva em cuidar da mãe terra: as pessoas pertencem à terra, a terra não lhes pertence, procurando viver em harmonia com ela. O terceiro princípio afirma a inter-relação, inter-conexão e interdependência entre os homens e as criaturas vivas e não-vivas: nada existe que seja ou esteja isolado. O quarto princípio sublinha que as identidades individuais e familiares não estão separadas do contexto sociocultural e espiritual. O quinto príncipio diz que a Natureza, as criaturas vivas e não-vivas são o fundamento da realidade espiritual.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 160.

Filosofia Ubuntu

“De acordo com Broodryk, o ubuntuismo define-se como uma cosmovisão tradicional africana baseada nos valores de um humanismo intenso, carinho, partilha, respeito, compaixão e os respectivos valores associados, valores esses que visam assegurar uma vida comum feliz e humana no espírito familiar. Na educação ubuntu constitui um ritual muito importante introduzir as crianças a todos os membros da família alargada desde muito cedo por formas a que elas conheçam e respeitem a cada um deles na base do conhecimento que tenham do lugar de cada um na hiérarquia familiar. Um outro valor, deveras muito importante e que uma pessoa ubuntu presa em cultivar com devoção, é a capacidade de perdoar. Perdoar pressupõe o exercício de empatia e de simpatia para com o outro. O perdão é tido como divino. O perdão está muito ligado à tolerância, pois é uma das condições básicas para uma vida em comum entre pessoas de diferentes origens mas que se reconhecem e celebram o facto de serem humanos acima de tudo.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 164.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Free Africa!

“Asante apresenta como segunda acção libertadora da afrocentricidade a desconstrução do mito da objectividade, mito este espalhado e defendido pela ciência e exportado pelo ocidente para os outros locais culturais. Mas de facto toda a ciência é um conjunto de asserções com a pretensão de serem objectivas. Ou seja, toda a ciência reduz-se a uma questão de discurso, no qual o mensageiro (o cientista) tenta fazer passar a sua mensagem como sendo verdadeira e objectiva. No entanto, todo o conhecimento é político, porque gerado sob determinados condicionalismos sociais e políticos, ou seja, num contexto de poder ao qual o cientista não se pode excluir. O eurocentrista usa um discurso hierarquizante que tem como fim controlar os outros discursos vindos da periferia, sob a capa do universalismo da objectividade.”


José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 136.

Haverá um futuro?

De acordo com Mbiti, , a História para trás, isto é, do Sasa para o Zamani, do momento experienciado para um longo período em que nada pode ser experenciado. Na concepção tradicional africana, a História não se move para a frente, ou seja, para um futuro de progresso ou para o . Daí que, pode inferir-se, não haja muito espaço, entre os africanos, para ideias ou noções de felicidade, de liberdade, de progresso e do desenvolvimento. Da mesma forma que não há ideias ou noções apocalípticas do mundo e da fatalidade. Não existem implantados no futuro e nem é possível imaginá-lo. O tempo de ouro está somente no Sasa. Portanto não pode também existir um futuro radicalmente diferente do que o que actualmente está a ser vivenciado e experienciado no Sasa
José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010, pagina 90.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Time

“O conceito linear do tempo no pensamento ocidental, com um passado indefinido, presente e um futuro também indefinido, é práticamente inexistente no pensamento africano. O futuro (no pensamento tradicional africano) é virtualmente ausente porque os eventos que estão nele ainda não aconteceram, ainda não foram compreendidos, portanto não podem constituir tempo. Se, contudo, eventos futuros dão-se como sendo certa a sua ocorrência, ou fazem parte do ritmo inevitável da natureza, eles constituem somente o tempo potencial, e não o tempo actual.” (Mbiti, 1969, 17)

Uma pessoa só o é como tal quando tem toda a carga dos seus antepassados consigo.”

José P. Castiano, Referenciais da Filosofia Africana, Em busca da Intersubjectivação, Nadjira, Maputo 2010.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

“Deus em macua diz-se MULUKU, com as correspondentes dialectais de NLUKU no grupo macua-meto e MULUGU no grupo macua-lomwe”.


“Na sociedade macua não existe culto directo a Deus propriamente dito. No culto macua, que consiste fundamentamente, no sacrifício de farinha, oferecido aos antepassados, honra-se especialmente os espíritos ancestrais e antepassados mais importantes da família e da aldeia, considerados como autênticos intermediários entre Deus e os homens. Só indirectamente este culto é dirigido a Deus.”

“Na cosmovisão macua, a sobrevivência dos mortos é definitiva. Os espíritos já não mudam, nem na sua maneira de ser, nem no seu modo de actuar. O seu estado, depois da morte é definitivo.”

“O sacrifício tradicional macua (MUKUTTHO) é o sacrifício que se oferece aos antepassados da família ou (e) da comunidade, já que estes são considerados vivos e com poderes sobre-humanos eficazes, com a finalidade de estabelecer a comunhão entre os membros da família ou (e) da sociedade, os antepassados e Deus”.

Francisco Lerma Martinez, O Povo Macua e a sua Cultura, Paulinas, Maputo, Moçambique, 2008.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Pensamento livre

Radio Lusófona com notícias do mundo, muitas africanas, Brasil, Europa, FM 101.9. Cimeira do Clima em Durban, ao mesmo tempo que a população mundial ultrapassou os 7 biliões e o clima aquece. Guebuza chega amanhã a Nampula. Crise na Bélgica, depois de mais de um ano sem Governo. Seis países ricos da UE foram ameaçados de ver o seu índice de raking financeiro descer. Os políticos europeus sofrem todos do mesmo, luxo. Portugal está em “falência técnica” há 4 trimestres, PIB a decrescer – recessão geneuína. Calou-se (a radio) e passei para o 103,6 RFM – música ligeira brasileira romântica. Monte Mabu? Monte Namuli? Quimba? Ilha? Memba? We shal see!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Clean up

23h 15min, encontrei o CD de limpeza e efectuo a operação. Aqui estou a transpirar, de fora vem fresco. O ruido dos carros, carrinhas, camiões, motas e aviões, continua. Acaba de passar um mosquito, resistente à ventoinha e incenso. Línguas estranhas no café do centro comercial, uma conversa com o A. sobre os seus desencontros amorosos e as tropelias dos pedreiros macuas. Comprei água e sal fino. A velocidade do pensamento atravessa tempos e extensões. Do alho do avô de campolide ao gengibre para a memória, da moralidade étnica ao viva o povo brasileiro, da empresa de areias pesadas de Topuito à miscigenação Koti Macua. Alguns sonhos díspares, sem registo notório. Frases antigas, lugares comuns, provérbios de sempre. A música mantém presença forte. Desta e da outra, sul africana, moçambicana, cabo verdeana, africana, brasileira, sul americana, ocidental, lusa e oriental. Batucadas ainda nada. Animais só corvos. Pó quanto baste. O comboio apita repetidamente a horas desuzadas. Acordo ortográfico ainda por implementar aqui. Algumas palavras de Macua, poucas. Visitas aos bairros, raras. Passagem nas lojas, escassas e fugidias.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

“Os poderes atribuídos aos instrumentos e aos medicamentos nos ritos de cura entram em actividade somente pela acção dos especialistas, homens dotados de força psicológica, de conhecimento das plantas medicinais, com arte própria e sabedoria mística reconhecida pela sociedade.

NAHAKO: procura descobrir o culto e investiga para manifestar o escondido, especialmente as causas das desgraças e das doenças.

MUKHULUKANO: exerce a arte de curar, conhece as ervas medicinais, sabe preparar os medicamentos, confecciona-os de facto e administra-os ao doente, cuidando da sua terapia.

NAMUKU: reúne à sua volta outros indivíduos que têm conhecimentos e poderes sobrenaturais extraórdinários para uma acção benéfica comunitária.

Existe por outro lado uma personagem designada por MUKHWIRI: pessoa que, com poderes sobrenaturais extraórdinários, pode causar, por si ou por meio de terceiros, doenças e até a morte.”


Francisco Lerma Martinez, O Povo Macua e a sua Cultura, Paulinas, Maputo, Moçambique, 2008, pag. 159.

“O processo curativo utiliza instrumentos e medicinas, de valor simbólico e terapêutico, classificados de várias formas e com contextos rituais específicos. Existem uma variedade de instrumentos e de medicamentos conhecidos. E também os especialistas dos ritos de cura.”


Francisco Lerma Martinez, O Povo Macua e a sua Cultura, Paulinas, Maputo, Moçambique, 2008, pag. 159.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Doenças na Macuana

Existem vários tipos de classificações (exteriores) das doenças no grupo Macua.


Esquema descritivo:

a) doenças causadas por mau comportamento;

b) doenças causadas por falta de higiene;

c) doenças com origem noutras causas.

Segundo a cura:

a) doenças em geral;

b) doenças físicas e infecciosas;

c) doenças culturais (específicamente macuas).

Segundo as causas:

a) doenças causadas pela maldade de um terceiro;

b) doenças causadas pelo castigo de um espírito;

c) doenças causadas pelo amor possessivo de um terceiro.

Outra:

a) Doenças originadas por causas conhecidas.

b) Doenças originadas por causas desconhecidas.



Francisco Lerma Martinez, O Povo Macua e a sua Cultura, Paulinas, Maputo, Moçambique, 2008, pag. 154.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ainda não datadas...

Hoje fui com a colega A. visitar as Pinturas Rupestres de Malodge. Depois de passar a tabuleta do Distrito de Murrupula, mais ou menos a 40 km de Nampula, tabuleta à esquerda indica 13 km. De facto são 9,5, muita areia, 3 sítios de pedra (ribeiros agora secos) a atravessar com calma. Pedimos informação já perto, entram 3 homens, um mais velho é o chefe da zona, fala pouco português, mas os dois mais novos ajudam; seguimos, paramos junto a 1 Eizelberg imponente. O monte chama-se Malodge (ou Malotche), está na localidade de Casuzo, Distrito de Murrupula. Tem um telheiro de palha com troncos para sentar. Aparecem miúdos e mais 3 homens. Vê-se a enorme pala do rochedo, projectando uma sombra imensa sobre uma espécie de caverna gigante. Iniciamos a súbida íngreme, terra negra e pedras soltas, rochas, rochedos, alguma areia mais acima. A meia encosta, o local do Mucuto, pequeno, plano, junto a um arbusto. Para cima è rocha lisa de granito, areia como na praia, muito inclinado. Os desenhos de forma e cores (branco, negro, vermelho, barro, cinzento, amarelo) no granito de grão fino são requintados. O último bocado, com declive máximo, em areia, é terrível. Atingimos o topo e o fundo da gruta; numa zona central e ainda mais escavada, deparamos com desenhos a vermelho, de tão simples, dois grupos de 4 traços verticais grandes, uma espécie de escudo, uma espécie de roca, alguns traços pequenos verticais e horizontais, uma cruz “suástica”. A A. de chinelas passou o cálvario para subir, mas adorou. A paisagem, a temperatura, a sensação, por baixo das pinturas, são extraórdinarias. Ao fundo no vale e morros, pedra e mais pedra, mato queimado; ao longe raras machambas, mais longe os mesmos enormes eizelbergs espalham-se no horizonte. Descansamos e tiramos fotografias, falamos e apanhamos o ar fresco. Os locais desconhecem qualquer história sobre os desenhos, sabem que são muito antigos; aguardam intervenção do governo para dinamizar o local. Mas Mucuto faz-se aqui mesmo muitas vezes e por variados motivos. A descida é mais leve, estão já mais mulheres e crianças sentadas no telheiro. Cumprimentamos, trocam-se piadas! Retomamos a viatura, que se porta muito bem sem precisar de tracção, com os nossos 3 acompanhantes, mais outro que pediu para levar um filho doente; paramos mais à frente, a mãe está com a criança no meio da machamba, ao colo, uma mama enorme de fora, entrega o rapaz ao marido e retomamos o percurso; deixamos o chefe e os 2 acompanhantes em casa; seguimos até ao alcatrão e paramos mais à frente para comprar água; não trouxemos nada, mal prevenidos! Rápidamente estamos em Nampula, virando à esquerda para ir almoçar aos Montes Nairuco, em direcção a Rapale.

domingo, 23 de outubro de 2011

Viagens na minha terra

Hoje fui com a colega A. visitar as Pinturas Rupestres de Malodge. Depois de passar a tabuleta do Distrito de Murrupula, mais ou menos a 40 km de Nampula, tabuleta à esquerda indica 13 km. De facto são 9,5, muita areia, 3 sítios de pedra (ribeiros agora secos) a atravessar com calma. Pedimos informação já perto, entram 3 homens, um mais velho é o chefe da zona, fala pouco português, mas os dois mais novos ajudam; seguimos, paramos junto a 1 Eizelberg imponente. O monte chama-se Malodge (ou Malotche), está na localidade de Casuzo, Distrito de Murrupula. Tem um telheiro de palha com troncos para sentar. Aparecem miúdos e mais 3 homens. Vê-se a enorme pala do rochedo, projectando uma sobra imensa sobre uma espécie de caverna gigante. Iniciamos a súbida íngreme, terra negra e pedras soltas, rochas, rochedos, alguma areia mais acima. A meia encosta, o local do Mucuto, pequeno, plano, junto a um arbusto. Para cima è rocha lisa de granito, areia como na praia, muito inclinado. Os desenhos de forma e cores (branco, negro, vermelho, barro, cinzento, amarelo) no granito de grão fino são requintados. O último bocado, com declive máximo, em areia, é terrível. Atingimos o topo e o fundo da gruta; numa zona central e ainda mais escavada, deparamos com desenhos a vermelho, de tão simples, dois grupos de 4 traços verticais grandes, uma espécie de escudo, uma espécie de roca, alguns traços pequenos verticais e horizontais, uma cruz “suástica”. A Sílvia de chinelas passou o cálvario para subir, mas adorou. A paisagem, a temperatura, a sensação, por baixo das pinturas, são extraórdinarias. Ao fundo no vale e morros, pedra e mais pedra, mato queimado; ao longe raras machambas, mais longe os mesmos enormes eizelbergs espalham-se no horizonte. Descansamos e tiramos fotografias, falamos e apanhamos o ar fresco. Os locais desconhecem qualquer história sobre os desenhos, sabem que são muito antigos; aguardam intervenção do governo para dinamizar o local. Mas Mucuto faz-se aqui mesmo muitas vezes e por variados motivos. A descida é mais leve, estão já mais mulheres e crianças sentadas no telheiro. Cumprimentamos, trocam-se piadas! Retomamos a viatura, que se porta muito bem sem precisar de tração, com os nossos 3 acompanhantes, mais outro que pediu para levar um filho doente; paramos mais à frente, a mãe está com a criança no meio da machamba, ao colo, uma mama enorme de fora, entrega o rapaz ao marido e retomamos o percurso; deixamos o chefe e os 2 acompanhantes em casa; seguimos até ao alcatrão e paramos mais à frente para comprar água; não trouxemos nada, mal prevenidos! Rápidamente estamos em Nampula, virando à esquerda para ir almoças aos Montes Nairuco, em direcção a Rapale.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Porque aconteceu ?

“Na cosmovisão macua, a doença, a par das restantes desgraças (adversidades na caça, má colheita, dificuldades nas viajens,pouca sorte nos negócios, desastre matrimonial e outras desfeitas), tem sempre uma causa directa, que deve ser descoberta para se poder curar. Por isso mesmo, é preciso investigar em duas direcções:

a) No próprio doente: alimentação nociva, falta de higiene, não cumprimento dos deveres do próprio estado, transgressão de uma lei ou violação de uma norma moral da sociedade;

b) Em outras pessoas: intervenção punitiva e mística dos antepassados, acção funesta de um agente malvado dotado de poderes extraordinários, inveja, ciúmes ou vingança de outros individuos.”

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Miyo kokhuma o Namuli

“Doença e cosmovisão


Existe uma íntima relação entre a doença em si, o doente e a sociedade, dentro da visão que o macua tem da realidade. Nesta sociedade não se pode considerar a doença como uma parte isolada dos restantes componentes, ou como um assunto particular do indivíduo, sem nenhuma outra incidência social. A doença aparece no indivíduo como ser complexo e membro de uma família e de uma sociedade. Por isso o macua vive a doença na profundidade do seu ser, sentindo-a como ruptura de equilíbrio das suas relações com a restante sociedade. Quando está doente sente a doença como uma desordem existencial profunda e luta para restabelecer a harmonia. Como doente, dirigirá os seus passos numa tríplice direcção, família, sociedade e natureza, de forma a superar positivamente a prova e evitar o perigo de morte que toda a doença traz consigo. Recorrerá às componentes essenciais da sociedade (Deus, antepassados, família e restante sociedade), para ultrapassar a agressão existencial e passar de doente a pessoa saudável, apoiar-se-á em elementos profanos (alimentação e higiéne), místicos (ritos, proibições, tradições e prescrições) e comunitários (família e sociedade em geral); com o seu apoio, não se sentirá só e abandonado no sofrimento. Pelos ritos de cura, o doente entrará em contacto directo com os elementos essenciais da cosmovisão e com os valores culturais fundamentais da sociedade a que pertence: a vida como valor supremo, considerada dinamicamente em movimento de acção e renovação; Deus, que é a fonte e que dá consistência e unidade a todo o processo; os antepassados, medianeiros da vida e, por isso, da saúde; os membros da sociedade, na medida em que a vida e a saúde só se podem obter com todos eles em relação e harmonia. E, como pano de fundo, frágil e transparente, as referências ao mito de origem (o monte Namuli), pois aí se deu a primeira passagem. Diz a tradição:
MIYO KOKHUMA O NAMULI (Eu venho do monte Namuli)."

Miyo kokhuma o Namuli



“Doença e cosmovisão


Existe uma íntima relação entre a doença em si, o doente e a sociedade, dentro da visão que o macua tem da realidade. Nesta sociedade não se pode considerar a doença como uma parte isolada dos restantes componentes, ou como um assunto particular do indivíduo, sem nenhuma outra incidência social. A doença aparece no indivíduo como ser complexo e membro de uma família e de uma sociedade. Por isso o macua vive a doença na profundidade do seu ser, sentindo-a como ruptura de equilíbrio das suas relações com a restante sociedade. Quando está doente sente a doença como uma desordem existencial profunda e luta para restabelecer a harmonia. Como doente, dirigirá os seus passos numa tríplice direcção, família, sociedade e natureza, de forma a superar positivamente a prova e evitar o perigo de morte que toda a doença traz consigo. Recorrerá às componentes essenciais da sociedade (Deus, antepassados, família e restante sociedade), para ultrapassar a agressão existencial e passar de doente a pessoa saudável, apoiar-se-á em elementos profanos (alimentação e higiéne), místicos (ritos, proibições, tradições e prescrições) e comunitários (família e sociedade em geral); com o seu apoio, não se sentirá só e abandonado no sofrimento. Pelos ritos de cura, o doente entrará em contacto directo com os elementos essenciais da cosmovisão e com os valores culturais fundamentais da sociedade a que pertence: a vida como valor supremo, considerada dinamicamente em movimento de acção e renovação; Deus, que é a fonte e que dá consistência e unidade a todo o processo; os antepassados, medianeiros da vida e, por isso, da saúde; os membros da sociedade, na medida em que a vida e a saúde só se podem obter com todos eles em relação e harmonia. E, como pano de fundo, frágil e transparente, as referências ao mito de origem (o monte Namuli), pois aí se deu a primeira passagem. Diz a tradição:
MIYO KOKHUMA O NAMULI (Eu venho do monte Namuli)."

Miyo kokhuma o Namuli


“Doença e cosmovisão

Existe uma íntima relação entre a doença em si, o doente e a sociedade, dentro da visão que o macua tem da realidade. Nesta sociedade não se pode considerar a doença como uma parte isolada dos restantes componentes, ou como um assunto particular do indivíduo, sem nenhuma outra incidência social. A doença aparece no indivíduo como ser complexo e membro de uma família e de uma sociedade. Por isso o macua vive a doença na profundidade do seu ser, sentindo-a como ruptura de equilíbrio das suas relações com a restante sociedade. Quando está doente sente a doença como uma desordem existencial profunda e luta para restabelecer a harmonia. Como doente, dirigirá os seus passos numa tríplice direcção, família, sociedade e natureza, de forma a superar positivamente a prova e evitar o perigo de morte que toda a doença traz consigo. Recorrerá às componentes essenciais da sociedade (Deus, antepassados, família e restante sociedade), para ultrapassar a agressão existencial e passar de doente a pessoa saudável, apoiar-se-á em elementos profanos (alimentação e higiéne), místicos (ritos, proibições, tradições e prescrições) e comunitários (família e sociedade em geral); com o seu apoio, não se sentirá só e abandonado no sofrimento. Pelos ritos de cura, o doente entrará em contacto directo com os elementos essenciais da cosmovisão e com os valores culturais fundamentais da sociedade a que pertence: a vida como valor supremo, considerada dinamicamente em movimento de acção e renovação; Deus, que é a fonte e que dá consistência e unidade a todo o processo; os antepassados, medianeiros da vida e, por isso, da saúde; os membros da sociedade, na medida em que a vida e a saúde só se podem obter com todos eles em relação e harmonia. E, como pano de fundo, frágil e transparente, as referências ao mito de origem (o monte Namuli), pois aí se deu a primeira passagem. Diz a tradição:
MIYO KOKHUMA O NAMULI (Eu venho do monte Namuli)."

domingo, 14 de agosto de 2011

Há lugares

Subi hoje ao penedo sagrado de Marrere, bem perto do antigo mosteiro cristão, actualmente hospital. No intervalo entre nuvens de chuva e sol forte, dirigi-me ao sopé e com cuidado com as cobras, iniciei a ìngreme escalada. Algumas pedras e terra solta, minhocas médias brancas de mortas e secas, como as folhas grandes. Queimaram o capim há pouco tempo. Acelero a respiração e o pulso. Passa um ar fresco. Lage de granito, muito lisa mas rugosa, desenhada em linhas curvas fluidas, grão fino, branco, negro e rosa. Algumas pedras enormes, rachadas. Passo a àrea assinalada pelos médicos tradicionais, com panos brancos pendurados da árvore caduca. Contorno o cume pelo Norte. Agora há que utilizar as mãos. O bando de corvos, negros e brancos, faz um voo razante. Mais um esforço, três saltos, estou no topo do rochedo. Paisagem bela, algumas serras espalhadas e eizelbergs dispersos nos 360º do horizonte; Nampula ao fundo, prédios, torres, coberturas metálicas; de resto, florestas de cajueiros e mangueiras espalham-se em vales e chãs em todas as direcções; algumas machambas, com bananeiras. Um cemitério a Norte, isolado entre as árvores. Sento-me. A Sul ouvem-se os coros das mulheres.

Cantigas ao desafio

“Gostaria de escrever
Meu romance até ao fim
Com fundamento concreto,
Se conseguisse poder
Encontrar-me sempre assim,
Para o fazer bem completo.

Uma história que é evidente
Quer seja ou não em poesias,
Sempre que é digna de apreciar;
Como a que temos presente,
Completa sem fantasias
Nem preceitos de enganar.”

Cantigas ao desafio

“Gostaria de escrever
Meu romance até ao fim
Com fundamento concreto,
Se conseguisse poder
Encontrar-me sempre assim,
Para o fazer bem completo.

Uma história que é evidente
Quer seja ou não em poesias,
Sempre que é digna de apreciar;
Como a que temos presente,
Completa sem fantasias
Nem preceitos de enganar.”


terça-feira, 9 de agosto de 2011

What is it?


“A Pré-História


No vasto território que o povo macua ocupa hoje, no norte de Moçambique, há importantes estações arqueológicas e de arte rupestre, que testemunham a presença na região, em tempos passados, de povos antigos antes da chegada dos macuas (bantus). Os primeiros habitantes da região foram os povos Khoi e San, descendentes de homens de Grimaldi e dos Boskop. A arte rupestre e as estações arqueológicas encontradas na região poem em evidência a presença de povos com mentalidade distinta, em épocas muito distantes, e são vestígios do Paleolítico (a estação de Riane), de uma escrita hieroglífica primária (a estação de Campote, no Niassa) e de agricultores com mentalidade neolítica (estações de Nacavala, Murrupula e Mogovolas, em Nampula).”

“Séculos XV-XVIII: Os estados afro-asiáticos da costa e os regulados macuas


Os Árabes introduziram entre os macuas intercâmbio de produtos em larga escala, novas técnicas agrícolas, novas espécies de plantas e o comércio de escravos.
Obrigados a defender o seu território e querendo controlar por si próprio o comércio do marfim e o tráfego dos escravos, estabeleceram-se uniões e mini-alianças entre os vários grupos clânicos, aparecendo, deste modo, aquilo a que podemos chamar de confederações de clãs. É o caso dos Chacas, Erati e Meto, no vale do rio Lúrio; e dos Namarróis, mais a Sul do território macua.”

Entre alguns chefados macuas e os pequenos reinos afro-asiáticos da costa estabeleceram-se alianças baseadas no comércio de produtos e no tráfico de escravos. Começou desta forma o capítulo mais trágico da história do povo macua: a escravatura. Sobre a escravatura entre os macuas foram levantadas várias hopóteses e feitas diferentes interpretações; entre os Macuas-Meto, existiriam clãs de homens livres e clãs de escravos; outros falam de escravatura doméstica. Seja qual for a interpretação preferida, tanto uma como outra falam de dominação e exploração do homem pelo homem, de homens superiores e homens inferiores, de homens que não são pessoas, pelo que podem ser vendidos, e são-no de facto, como qualquer outro produto ou objecto, podem inclusive, ser mortos impunemente. Existe, numa palavra, a escravatura, praticada por eles e por estranhos. Um capítulo da sociedade macua, que continua aberto ao estudo: quais as causas profundas e as consequências históricas deste fenómeno – é o que falta apurar.”

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bye bye Zambézia, Hello Nampula

Mais uma grande mudança, em curso. Depois de jantar na Pizaria na sexta-feira, um copo no Kopus. De manhã, pequeno-almoço de ovo estrelado, salada, batata frita, sumo natural de fruta e café. Partida pelas 10h, paragem no Molocue para água e amendoins (ia para baixo o homem da camioneta que fez a mudança), encontramos o M. que se cruzou na estrada vindo de Macomia, 3 controlos da Polícia, 1 mandou parar, olhou e mandou seguir, chegada a Nampula pelas 17h, quase noite. Receção sem problemas. Hoje foi levantar na calma e começar a arrumar as coisas. Batuques na varanda; festa à saida da cidade para Nacala, num grande quintal com telheiro, boa comida, muita salada. Compras na loja de conveniência, casa, começar a rever os papeis, fazer plano imediato, mandar mensagens, telefonar. O apartamento está no centro da cidade, ATM ao lado da porta, café a 500m, Catedral (torres) à vista; a varanda e as janelas dos 2 quartos debruçam-se sobre outros predios, um pouco de horizonte rasgado; os aviões passam por cima; para trás, prédios e mais um em construção; totalmente urbano – grande mudança para mim.

terça-feira, 12 de julho de 2011

No Ralo

Terça-feira à tarde, nada para fazer. A chuva tropical caiu muito pesada durante toda a manhã, parou há pouco. As crianças iniciam já as brincadeiras mexidas e as canções no terreiro molhado em frente à casa, descalças. Está fresco. Ouve-se uma motorizada a passar, os patos a grasnar, as rãs a coaxar, um zumbir discreto da cidade ao longe. Passa um camião pesado e estremece a situação, gane um cão. Um galo cocorica. O céu está coberto, de nuvens cinzento esbranquiçado, agora mais claro. As folhas das palmeiras não mexem, quase uma palha.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Religiões Africanas

“O primeiro sentido na iniciação deve ser situado em tudo o que concorre para dotar o crente dos conhecimentos teóricos e práticos relativos à sua fé. Alguns dos conhecimentos veiculados pela iniciação são quase da ordem do profano. Outros são considerados sagrados e a sua comunicação é cuidadosamente protegida. Esta iniciação não está ao alcance de qualquer um. A iniciação é ocasião de um comércio com as forças numinosas transcendentes, cuja manipulação depende de conhecimentos elevados e cuja abordagem assenta fundamentalmente num acto de fé.”

“A noção africana de família engloba também e sobretudo os vivos e os mortos. Assim, para cada homem-pessoa africano, o triunfo na vida não se limita ao êxito social, antes deve prolongar-se para além da morte. Tanto de um lado como do outro, a família é, assim, uma via obrigatória.”

“As crenças religiosas negro-africanas não contêm a ideia de um fim do mundo.”

terça-feira, 5 de julho de 2011

Let's go!

Saio do Hotel em Maputo depois do pequeno almoço, já tarde, compro escovas limpa parabrisas (800 Mt), triangulo reflector (100 Mt), colete reflector (100 Mt), sandalias (200 Mt). O trânsito está carregadíssimo na saída da cidade para a N1; dezenas de mercados, barracas, chapas, pessoas em movimento e gente por todo o lado; passo o novíssimo Estádio Nacional do Zimpeto, muito lentamente, com muita PRM, por todo o lado, de poucos em poucos km fazendo stop aos chapas; sou parado, pede documentos; um pouco de conversa, está a andar, sem problema. Quando saio da zona de urbanismos em curso, paro para mijar; continuo a respeitar escrupolosamente os limites de velocidade estipulados nos sinais, antecipadamente; de vez em quando, acelero um pouco. Atravesso a Província de Gaza, muitas manadas de bois, paisagem verde ondulante, faz lembrar o filme do Shaka Zulu. Passo Manhiça, com o seu centro de Investigação em Saúde (paragem extemporanea no Shopright onde compro açucar castanho e batatas fritas) e paro depois em Xai-Xai (chamuças e cerveja), logo a seguir à passagem sobre vastas terras inundáveis e o largo Rio Limpopo. A capital de Gaza não é grande. Fachadas de arcadas antigas e pouco mais; rés-do-chão e primeiros andares; volto ao caminho e aparecem vários rapazes com arcos e flechas, pequenos, decorados a cores – travo rápido e adquiro o objecto longamente procurado! Mais um pouco e saindo à direita em 5 km de pista de areia, uma especie de primeirinha TT nesta trip, ladeio uma enorme lagoa de água azul e chego a Chidenguele, com cerca de 350 km de percurso, já quase ao anoitecer. Altas dunas cobertas de mato e floresta baixa, mar azul forte. O local é muito agradável, com piscina de água azul iluminada, alojamento simples mas com bom gosto, bar restaurante acolhedor (Paraíso de Chidenguele). Desço à praia, vento forte e frio, até à linha das ondas potentes, do céu tão extra estrelado, não consegui localizar o Cruzeiro do Sul. As habituais dificuldades de rede, agravadas, impedem chamadas. Jantar bastante agradável, peixe, batata frita, salada, cerveja, uma mesa de turistas americanos e sul-africanos; vou deitar muito cedo, ao quente. Está bem frio aqui!