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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Para casa


Levantei às 5h para sair, ainda escuro, aqui não há mata-bicho: carro coberto de cacimba, hoje vai ser uma longa viagem. Levanto cash no ATM e viro na direção da praia. Marginal de terra, linha de casuarinas e acácias, nascer do sol em prata dourada, avistam-se bastantes barcos à vela ao longo da praia estreita e longa; ao longe (não muito) 5 ilhas identificáveis, com uma espessa camada de verde, quase planas. Regresso à N1, tenho ainda água, sumo de laranja e castanha de caju, vai-me aguentar algum tempo; o piso está em mau estado e a velocidade diminui mas pouco depois, a Norte, passo a grande ponte metálica sobre o Rio Save, fronteira simbólica entre o Sul e o Norte do País, limite das Províncias de Inhambane e Sofala. Aqui já houve grandes peripécias de guerra e posse! Alguns soldados, alguns polícias, conversam tranquilamente sentados. Pago a portagem, 20 Mt. Tranquilamente, passo sem qualquer reparo e tiro umas fotografias. Do outro lado, um longo troço de floresta não muito expessa, re-atesto o gazóleo em Muchungue (vou com 1.105 km), compro um arco e 4 flechas, tangerinas e laranjas; aparece entretanto a placa indicando entrada na Província de Manica; finalmente à esquerda no horizonte, muito ao fundo, o pico do Monte Binga destaca-se na cordilheira oeste. Mas está muito fumo no ar e vê-se mal. Chego ao cruzamento de Inchope, sempre a andar, estou outra vez em Sofala, passo Gorongosa, atravesso incêndios de mata mesmo em cima da estrada e paro para apreçar as batatas num pequeno aglomerado de barracas e vendedores; mas está caro. Retomo o volante e acelero; passando Matondo um galo lança-se na roda da frente da esquerda, mantenho a velocidade – aqui dizem que se deve parar para pagar o galo, se não haverá feitiço, mas eu, sem abrandar, rápidamente chego a Caia para parar finalmente e atestar de diesel (1.568 km até aqui, tenho um consumo médio de 10,2 l de diesel por 100 km, o que não é nada mau), mijar e tomar um café. Várias crianças estão a pedir, um vende pequenos pilões de madeira castanha brilhante. Retomo a passagem da Ponte Emilio Guebuza, lentamente, pago 100 Mt de portagem, olhando ao longe sobre o vastíssimo Rio Zambeze. Entro na Zambézia, passo a tabuleta do Cuácua Lodge ao fundo á direita, paro no Zero para comprar mel na cooperativa dos apicultores de Morrumbala e Mopeia. A miudagem reune-se a apreciar. Arranco mas a estrada está cheia de pessoas e bicicletas com enormes sacos de carvão, tem curvas e pontes, atravessa muitas “aldeias rodoviárias”, barracas; muita gente a cruzar a estrada e já é noite quando chego a Nicoadala. Sigo para Quelimane, mais 30 minutos, para chegar a casa aos 1.785 Km. Cansado, mas muito bem!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Religiões da África Negra

Em África, o homem é essencialmente concebido como uma pessoa, isto é, como uma síntese dinâmica de um conjunto de componentes de proveniências e destinos diversos. Dessas componentes, a primeira é o sopro, por toda a parte reconhecido como obra exclusiva do Criador. Chamado émi entre os Iorubas e gbigbo entre os Fons, o sopro não é apanágio exclusivo do ser humano. É a marca do que é vivo e une numa verdadeira comunidade todos os seres vivos, tanto os animais como as plantas.

Segunda componente da pessoa: o corpo. Pela sua materialidade, o corpo é o elemento mais tangível da relação com outrem e, em especial, com os progenitores. Habitáculo do sopro e ao mesmo tempo receptáculo de todas as influências susceptíveis de afectarem o homem, ele é a principal fonte da acção do humano sobre si mesmo e sobre o seu meio.

As componentes imateriais do homem são: éda, entre os Iorubas, o “homem-mesmo”, a sua ligação directa com o Ser Supremo; okan, o coração; iku, morte; kpori, cabeça interior invisivel e essencial.

Além destas componentes comuns, o homem pode ter componentes específicas, cuja aquisição é própria de um indivíduo ou de um grupo: Oduifá, os signos primordiais; Ogum, feitiço; Adjé, feitiçaria; Tohossu, vítima.

Ao exceder a consciência individual, a pessoa revela-se ser um espaço em que o grupo pode intervir tanto como o próprio ego. Este é um dado essencial do estatuto do ser humano no pensamento africano, fundamentalmente o de “ser em relação”.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Religiões Bantu

Na religião Ioruba, quando aprouve ao Ser Supremo (Olorum) criar o mundo (Aié), foi a Oduduá que confiou essa importante missão. Em língua iorubana o nome genérico dos deuses é Orixá. Assim, Oduduá, que recebeu do Ser Supremo a missão de criar o mundo, é um Orixá, tal como Obatalá, que recebeu ordem para dar forma aos humanos.

Na religião Fali, na origem do mundo acham-se um ovo de tartaruga e um ovo de sapo. O primeiro homem foi To Dino, que por ocasião da segunda descida à terra, tomou a forma do ferreiro.

Na Religião Dogom, Amma é o nome que dão ao Ser Supremo, Deus, criador de todas as coisas. Na origem de todas as coisas achava-se o ovo de Amma. Os primeiros homens foram formados no céu, como os quatro pares de deuses, os Nonno anagonno.

Como é que os Bantos Designam Deus? Nas línguas bantos, línguas com classes, que repartem a totalidade do real por um número limitado de classes reconhecíveis, existem quatro classes de seres: o ser-substância de inteligência (o homem); o ser-substância sem inteligência (a coisa); o ser-localizador (lugar-tempo); o ser-modal (maneira de ser ou acidentalidade). O primeiro sinal distintivo do Ser Supremo é o ser declarado como não pertencente a qualquer das classes usuais de seres. Para os Bantos, o Ser Supremo ou Deus, afirma-se transcendente porque está fora das classes, acima das classes, antes de todas as classes.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Confucionismo será uma religião?

O neoconfucionismo, rejeitando a tese de Xunzi (325-255 AC), que defendia que a natureza humana está em excesso viciada pelo egoísmo para que nela apareça ainda a espontaneidade do Bem original, reivindica a herança da doutrina de Mêncio (385-304 AC), para quem, pelo contrário, a prova de que a bondade natural não se desvanece nunca por completo no mais fundo do coração humano, está em que ninguém verá nunca sem emoção uma criança cair a um poço (Léon Vandermeersch, O Confucionismo, As Grandes Religiões do Mundo, Jean Delumeau, Editorial Presença, Queluz de Baixo, 2002).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Manas...



10, 9, 8, 7, ...



O dia amanheceu com muito sol e céu azul claro. Existem movimentos de reivindicação autonomista na Argelia, por parte dos Berberes (Kabiles e Tuaregs), e que aparentemente se preparam mudanças de vulto no regime. Será “do mal o menos”? Fiquei bem disposto, claro.Fui buscar 5 sacos de arroz em Namacata e transportei-os para Nicoadala. Ainda sem notícias de Maputo. Compras, fazer o jantar: bifes com esparguete e salada. A X. há-de vir, o A. há-de comer. A Z. reivindica os seus valores culturais (família alargada), o A. também. Pela leitura dos jornais, entre Taoismo e Confucionismo (As Grandes Religiões do Mundo), aparecem alguns escândalos políticos e algumas coisas interessantes.


Junios, ou outros...o que conta de facto é o ritmo...entre as músicas e os stars sul africanos introduzidos pelo A., as recolhas da Tanzania, Malawi e Zimbabwe, falta ainda os lock in (gravações no mato) locais. RTP África, punhetas de políticos decrépitos, quem quer saber das cortesias dos boys do PS? Depois de um ótimo jantar, com discussão étnico-linguistico-cultural, bazámos para o Kopus, com DJ extra out, girls realidade e Etxwabo Xíntoista. Dasafia qualquer multiculturalidade. Namoradas à força. Díficil resistir. Mas, sem stress, segue-se o caminho. Um SAm, um etxchwabo, um portuga, um ronga, uma moçambicana da tribo branca, um portuga nascido em Gurue, cá fora. Dois russos, 2 chineses, 2 moçambicanos e 3 moçambinanas lá dentro. Noite na marginal de Quelimane, tranquilamente mareada.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A caravela de granito encalhada

A construção da caravela de granito

A faixa ocidental da península Ibérica apresenta 3 núcleos culturais, separados de norte a sul pelo rio Douro e pelo sistema Tejo – Sado, bem individualizados desde a pre – história. Cerca de 700 anos antes de Cristo, no Bronze final, as 3 pertenciam a um grupo individualizado a nível continental, o Bronze Atlântico, com predomínio da cultura Celta.

A ocupação pelo Império Romano, instalou um sentimento de derrota e de esperança nos vencidos, ligando verticalmente as 3 regiões pelas vias e pela língua, o latim.

Os galegos, lusitanos e futuros portugueses, herdaram um sentimento de perca, transmitido pelo mito da morte de Viriato, que fazendo parte da mitologia Celta, tão bem ilustrada pela lenda do Rei Artur, ou mais tarde reinventada para a batalha de Alcácer Quibir e a morte de D. Sebastião, prevê o regresso do Mestre do outro mundo, revigorado para o bem do seu povo.

As comunidades humanas residentes no noroeste da península ibérica, têm resistido ao longo dos últimos 3 milénios às sucessivas vagas de invasão civilizacional, conseguindo após um período de tempo variável, a recriação de modelos sociais contendo arcaísmos próprios. Esta capacidade de resistência à inovação, limita as influências externas, positivas e negativas, dificultando a projecção dos territórios numa dinâmica de futuro sustentável.

È do extremo Norte desta faixa Ocidental que se lança a Reconquista em 800, criando um novo modelo administrativo do território suportado pelas divisões religiosas e pelos mosteiros e Igrejas.

Após 300 anos deste Feudalismo, um sobressalto familiar, um erro histórico, uma falha na construção da caravela de granito, o Condado Portucalence separa-se da Galiza. Os organizadores administrativos do processo separam-se do resto do barco, ficando confinados ao “Convés dos Oficiais”. De facto foi a luta interna no próprio sistema administrativo da Igreja que motivou esta cisão. Se entre 800 e 1.100 Santiago de Compostela representava o grande polo mobilizador da reconquista cristã, das peregrinações e das cruzadas, a partir de então, o ressurgimento de Braga com direitos “metropolitas” herdados do início do milénio precedente, veio disputar uma nova área de influência, em dioceses que se estendiam até Mérida. Foram assim disputas de interesses materiais (fundiários, patrimoniais e de influência) entre membros da Igreja Católica, que separaram Portugal da Galiza.

Os novos oficiais, em 200 anos ocupam toda a faixa até ao Sul Atlântico, dando por terminada a construção da “Caravela”, com o apoio das Ordens Religiosas Militares. Em 1254 decorre a primeira experiência parlamentar no Paço do Castelo de Leiria (antes da “invenção” Inglesa). Afonso III, em 1275, tinha montado com certa habilidade política o aparelho burocrático em que assentava a centralização régia. O cuidado administrativo permitiu-lhe aumentar os rendimentos da coroa e, por isso, sustentar um corpo de servidores cheios de zelo que assegurava a eficiência da máquina estatal por ele construída.

“O velho Portugal esteve ligado aos cuidados de construção interior, na primeira dinastia até ao D. Dinis, interessado em crescer, em ser, em afirmar-se” (Agostinho da Silva).

D. Dinis, o grande projectista concebe a construção do Paraíso na Terra, o reino do Espírito Santo: organizando a produção agrícola e distribuindo terras, plantando florestas para a produção de madeira, construindo barcos e organizando as confrarias de artífices, fundando uma universidade assente no aprender, enviando pessoas para estudar no estrangeiro, implementando os rituais do espírito santo na igreja católica, imagina um caminho de descoberta universal e de cooperação humana global.

D. Dinis, filho de Afonso III, começa a reinar em meados de 1278 e terá até ao fim da sua vida desenhado o país de hoje, a caravela de granito posicionada no quadro global (relações com reinos não peninsulares) e regional (política peninsular) com a sua organização interna de oficiais, marujos e outros (política de nacionalização). A obra é impressionante.
1. Relações com os reinos não peninsulares
o A expansão do comercio português em direcção ao Atlântico Norte materializou-se na realização de um Tratado de Comercio com o Rei Eduardo III de Inglaterra (1308) e com a obtenção de uma Concessão Colectiva aos mercadores portugueses de Harfleur, França, por Filipe IV, o Belo (1310).
o D. Dinis confirma a Bolsa dos Mercadores que trabalham na Flandres, Inglaterra, Normandia, Bretanha e La Rochelle e protege também os comerciantes portugueses na Inglaterra e Aragão.
2. Política peninsular
o Na península, Portugal subsiste como reino verdadeiramente independente no âmbito da Hispânia. O tratado celebrado fixou até aos nossos dias a demarcação territorial entre Portugal e Castela, considerada a linha de fronteira mais estável da Europa. D. Dinis construiu ou reparou os castelos fronteiriços, aperfeiçoou o exército e o equipamento militar necessário à defesa, e reorganiza administrativamente as cidades de fronteira.
o O Rei de Portugal é considerado como um interlocutor essencial e com autoridade política respeitada por todos.
3. Política de nacionalização
o Criação de um exército operacional, instituindo a obrigação de cada Concelho de fornecer e armar uns tantos “besteiros” (“besteiros do conto”).
o Criação dos Coutos de Homiziados (1308), para cumprimento das penas por crimes em lugares com importância militar perto da fronteira, permitindo assegurar a defesa dessas zonas quando pouco povoadas.
o Criação de uma força naval e de uma armada militarmente eficaz, capaz de combater a pirataria sarracena. A criação desta grande frota marítima beneficia da aplicação do dízimo dos rendimentos de todas as igrejas do reino, que o Papa concedeu ao Rei em 1320 para combater os muçulmanos.
o Torna independentes de províncias não portuguesas (“nacionalização”) as Ordens Militares que existiam em Portugal (Ordem de Sant’Iago, Ordem do Templo) e cria a Ordem de Cristo (1319 a partir da Ordem do Templo).
o Adopta a língua vulgar (Português) nos documentos oficiais de chancelaria (1296), assumindo a predominância do civil sobre o eclesiástico (latim), do profano sobre o sagrado, difundindo o processo de racionalização administrativa através da língua própria do Reino.
o Criação dos Estudos Gerais (estudo geral para toda a gente e geral para todos os estudos), mais tarde Universidade (em Lisboa, 1288 passando a Coimbra em 1309), dispondo de um corpo de clérigos e juristas que pudessem colocar os seus conhecimentos ao serviço da Igreja e da Administração Pública nacionais.
o Protecção dos Concelhos.
o Multiplicação dos privilégios a Feiras.
o Fomento da exploração mineira.
o Secagem de pântanos, desbravamento de matas, fundação de póvoas junto ao mar e na fronteira galega.
o Realiza o primeiro gesto de fomento florestal em larga escala com uma espécie vegetal adequada (Pinheiros Bravos entre Leiria e o mar).
o D. Dinis (o Rei Poeta) casa-se com D. Isabel em Trancoso (1282), a única Rainha Santa de Portugal, que promove um ideal de pobreza pela devoção de inspiração franciscana e que funda casas para a regeneração de mulheres que praticam a prostituição.

Com D. Dinis, “cabeça e começamento do povo todo”, o rei purga-se de peias feudais e impõe-se como chefe de Estado. El-Rei torna-se a palavra-figura polarizadora da unidade e da ordem.

O rumo da caravela de granito

“A economia de Portugal era no tempo de D. Dinís, uma economia de ajuda mútua, uma economia de convivência, de cooperação. As pessoas se juntavam, se associavam sem grandes formalismos, cultivavam em comum, repartiam os produtos, às vezes em economia de mercado, outras vezes de outra maneira. Aquilo que se tem chamado comunitarismo agro-pastoril, florestal e talvez até marítimo é o que aparece como característica nítida de uma economia portuguesa na Idade Média, sobretudo naquilo a que podemos chamar a economia da grande massa da população, a economia do povo. Se podemos pôr como característica fundamental da economia portuguesa da Idade Média, no seu sector povo, que era o maior em número (mais de 98%), a convivência, a cooperação, a fraternidade, que não só ficou em Portugal, mas, por exemplo, se transportou ao Brasil com o mutirão e o batalhão. Tem mais de vinte sinónimos o que mostra como se espalhou pelo Brasil. Quando uma coisa nova se espalha, os sinónimos são muitos. È o caso do mutirão ou batalhão, que é uma forma de economia colectiva e que hoje o estado Brasileiro aproveita muito. O rei era um rei que procurava coordenar as repúblicas municipalistas e que exercia pela sua coordenação e pelas reuniões de corte um poder democrático.” (Agostinho da Silva)

“Portugal levava para os descobrimentos um espírito composto e multiplicou-se em vários corpos. Espírito composto de um amor apaixonado pelo imprevisível, a que eles chamavam Espírito Santo, a figura do imprevisível na terra, e por outro lado uma infinita capacidade de albergar os contrários. Então os portugueses chegam à Guiné e o corpo de Portugal casa com o corpo de Africa, o qual tinha um espírito. Depois em lugares que estavam despovoados, por exemplo os Açores. Há uma partida de Portugal logo no tempo do Infante D. Henrique, em que saem de Portugal homens que vão fundamentalmente ser o melhor de Portugal fora dele.” (Agostinho da Silva).

O Bodo é o culminar das festividades realizadas entre os Domingos de Páscoa e de Pentecostes em honra do Divino Espírito Santo e simboliza a partilha entre os homens. Em Portugal, foram D. Dinis e a rainha Santa Isabel os monarcas inauguradores deste cerimonial religioso. Reza a tradição que a primeira cerimónia deste culto se realizou na Sé de Coimbra e que dela constou a coroação simbólica de um mendigo, seguida da distribuição de alimentos aos pobres, ou seja, do Bodo.

A partir desta data, o ritual disseminou-se pelo país e, nalguns locais, sobreviveu até ao presente. Já não se distribuem açafatas de confeitos ou cambos de peixe, como outrora em Pombal. Mas na aldeia de Espírito Santo, em Soure, ainda se compartem por esta ocasião pinhões e bolos; na Batalha, saboreiam-se as ferraduras de limão, canela e erva-doce; e, nalgumas freguesias açorianas, corre o vinho de cheiro e ofertam-se rosquilhas de massa sovada.

“Por volta de 1641, o Padre António Vieira disse que Portugal devia ser o instaurador do Quinto Império, quando Portugal compreendia o Brasil, as Áfricas e muito Oriente, era um Portugal em que havia índios, pretos, chineses, japoneses, malaios e indianos. Pendurada no total do povo, há a questão do Império do Espírito Santo. A coisa mais vasta e profunda que houve em Portugal quanto a uma ideia do futuro a ser instaurado é exactamente essa do Império do Espírito Santo. Vieira tinha a ideia da instauração de alguma coisa de diferente, de final e de pleno, cumpridor da humanidade no mundo, e que isso ia ser feito a partir de Portugal: tratava-se de fazer no mundo o reino de Deus. O Império de Vieira é um império de libertar gente de todas as pressões dos outros impérios, o florescer de todas as comunidades da Terra.”

O encalhamento da caravela de granito

Quando D. Dinis morreu, em 1325, foi-se com ele a escola da literatura galego-portuguesa, ou trovadoresca .

D. Afonso IV, filho de D. Dinis, ficou ligado definitivamente, traço sombrio, à tragédia de Inês de Castro, primeiro crime notório perpetrado em Portugal em nome da Razão de Estado.

Em 1348 a Peste Negra entra em Portugal, prolongando-se em vários surtos até 1497, reduzindo a população de um terço em algumas regiões rurais até cerca de metade nos núcleos urbanos. De 1355 a 1496 surgem inúmeras crises cerealíferas de subprodução, conhecidas como “Fomes”. De 1369 a 1477 travam-se várias guerras civis e contra Castela. Estes factores provocam a penúria demográfica do país.

“Quando Portugal foi para o mar, uma das consequências que teve foi que se desbastou o Pinhal de Leiria. Desbastado o pinhal, a areia entrava e entrou na cabeça e no coração das pessoas. Contemporaneamente à ida para o mar, entraram em Portugal determinadas atitudes. O que se importou como religião na altura em que o país quebra, sobretudo a religião que vai ser confirmada pelo Concilio de Trento, foi a condenação da religião do Espírito Santo. Isso quebrou o país dentro. Os descobrimentos prejudicaram o país, porque passou a ser fácil enriquecer. Bastava ir e pilhar. Toda a gente que não queria fazer nenhum esforço de trabalho resolveu mudar de vida e lançar-se a essa aventura e empresa estatal dos Descobrimentos, e isso levou aqueles que ficam em Portugal a viver daquilo que colhíamos lá fora, portanto a não tomar nenhuma espécie de iniciativa. Dentro do país foi para toda a gente uma coisa desanimadora, não havia nada que incitasse a coisa nenhuma ! D. João II queria imitar o imperador romano, mas o povo não estava satisfeito com um rei desse tipo. E aquilo que fazia não desprender o homem as mãos do leme não era o D. João II, era a memória daqueles reis que tinham sido muito diferentes de D. João II “ .

Em 1411 inicia-se o comércio de escravos pretos da Guiné. Nesta época afirma-se o absolutismo real, a centralização do poder (administrativo e simbólico) e a monetarização da economia (passando a ser fiduciária).

“Portugal, do século XIV para o século XV, muda, há uma crise. Chega aí a Europa para embarcar para o mar, misturando eslavos e germanos com os romanos que tinham sobrado e com os judeus, os cristãos que vinham pregar o Cristo, um caldo pronto a vender ao mundo, numa altura em que Portugal tem navios para levarem a mercadoria por aí fora. Mas a mercadoria queria outros costumes contraditórios com o que tinha sido Portugal até aí. O que a Europa trouxe para Portugal foi, número um, uma economia capitalista, mercantil, de concorrência e de luta. A economia comunitarista dos portugueses foi liquidada por essa chegada de um capitalismo mercantil que vinha da Europa. A Europa trouxe também uma igreja de código, e o português não foi feito para se governar por código, mas antes pela sua imaginação, pelo seu sonho e pela sua vontade. Pela sua capacidade e pela sua vontade de ser total. A religião do culto do Espírito Santo não sobrevive em Portugal a partir do século XVI.“

A história do poder municipal nos séculos XIV e XV é a história da aliança ou divórcio entre monarcas e burgueses. Mais aliança que divórcio. O que significou degradação das autonomias locais e cerceamento da promoção política dos moradores.

Diz-se que os clérigos (1% da população) tiveram uma vida moral péssima nos séculos XIV e XV. E tal parece ter sucedido. Pegando na lista dos sete pecados capitais, diríamos que todos foram bem cultivados, apesar dos assíduos discursos em defesa da excelência das virtudes contrárias.

Para a “nobreza” de 1400, o “proveito fidalgo” virou burguês. Dinheiro. A antiga noção, “proveito – terras – jurisdições”, continuou ainda, sem dúvida. E com grande ênfase. É prestigio, honra palpável. Mas com o cesarismo monárquico, a burocratização da justiça e da administração, a grande mobilidade social e geográfica, a transferência da qualidade de vida para as cidades, a afirmação de uma mentalidade quantitativa que hegemoniza o ter sobre o ser, o apreço cada vez maior do luxo e sumptuosidade no comer, no vestir e no habitar, a compulsão para ter escravos, o pré-capitalismo em fim – tudo isso e muito mais virou a cabeça dos nobres.

O grupo popular, em termos de conflitualidades internas e de relacionamento com os nobres e os clérigos, seguiu a regra geral: divisão, efervescência, salve-se quem puder. Na cidade e no campo. Burgueses contra mesteirais, estes contra aqueles, os de intramuros contra os de arrabaldes, vice-versa também, todos contra os aldeãos e os aldeãos a suportá-los na desconfiança e na inveja, só porque precisavam de subsistir. Uma sociedade de atritos. Que só duas forças parecem manter em equilibrio instável: a necessidade e o medo. Necessidade uns dos outros e medo das justiças; mais das humanas do que das divinas.

A socialidade dos portugueses nos séculos XIV e XV caracterizou-se pelo conflito e a luta. Isso tanto no interior dos grupos como nos grupos entre si. São séculos de crise e de rápida transformação.

No século XV, foi devido ao dinheiro que se esboroaram fronteiras societárias. Começando pelo grupo popular. Os burgueses deveram-lhe o acesso ao poder local e a franquia de espaços de autoridade nacional – como o das cortes, por exemplo. Graças a ele, a mobilidade social estatutária pôde verificar-se rompendo séculos de mentalidade e teoria. Os reis e nobres procuraram-no por todos os meios, não hesitando muitas vezes trocar a cota guerreira pela capa do mercador. A própria guerra cada vez mais têm de pensá-lo antes de se decidir. Nos finais da Idade Média, desde o cabaneiro pagador de impostos múltiplos até aos senhores e aos reis que os colhiam, o dinheiro foi a grande obsessão. Ter ou não ter começou a impor-se como o modo da diferença.

“A Inquisição aparece com vários aspectos. O pensamento do rei D. João III, começado com D. Afonso IV (Inês de Castro) e acentuado por D. João II, possivelmente inspirado pelo processo espanhol, produz a ideia de ter um país forte, um país uno, só com uma voz, que pusesse para fora todos os elementos espúrios; e esse pode ter sido o motor fundamental da Inquisição a par de outros (religiosos e económicos). Isto inclui o abatimento de todos quantos ousavam pensar pela própria cabeça. Como que passou a haver uma mentalidade oficial que todo o país devia seguir.”

Em 1538 a Inquisição inicia a “queima de Hereges” em Lisboa, na praça do Rossio. Os oficiais amotinados, exterminam todos os que pensam diferente, transformando o projecto humanista e universalista num negócio global, da pimenta à escravatura. Os marujos desnorteados, trabalham descoordenadamente ou emigram. A caravela encalhou, a sua velocidade passou a um centímetro por século, a velocidade das placas tectonicas.

(outras referências bibliográficas importantes)
A Pré – História de Portugal.
Antes de Portugal.
O Livro do Desassossego, Bernardo Soares (Fernando Pessoa).

Na caravela de granito encalhada adornando a estibordo contra rochedo bem visível (buraco negro da antiga Olisipo), deparamos com o comandante piloto, morto, caído para o lado direito e amarrado pelos pulsos à roda do Leme, na torre da caravela, o planalto Barrosão; no convés dos oficiais, a Galiza, bebe-se e come-se bem; os oficiais amotinados não querem saber de viajem ou de dirigir qualquer empresa; os marujos desnorteados, concentram-se a estibordo avaliando as possibilidades de naufrágio, alguns remam, outros recolhem velas, outros tratam do cordame.

2002, Novembro: o Director (auto-exonerado) do Centro de Saúde de Montalegre), dá despacho desfavorável ao pedido de requisição da AMI do Dr. Paulo Pires para uma missão de 3 meses na Guiné, Bissau. Desde há muito que me considero escravo (por oposição àqueles que nascem em casas onde todos sabem que nunca precisarão de fazer nada na vida para sobreviver e tudo por prazer ou desprazer). Alugar a força do trabalho é assim uma condição natural. No entanto recuso-me ser um remador acorrentado aos bancos da galé Caravela.

De tudo já fiz um pouco. Quase tudo já experimentei. Conheço o futuro dos projectos, antevejo o desenrolar dos acontecimentos e consigo já prever as situações de bloqueio. Perdeu interesse esta luta de 20 anos pelo desenvolvimento em Trás-os-Montes. As conquistas e os sucessos são muitos, mas não me preenchem as medidas, sobretudo a nível profissional. Conseguidas muitas vitórias, não ganhamos a batalha definitiva: a maré do consumismo individualista invade já o Barroso, a espuma dos resíduos “químicos” molha as fraldas das montanhas e intoxica os seus habitantes.

O projecto de intervenção em Saúde Comunitária, longamente trabalhado, quase materializado na COOPSA, cooperativa de promoção da saúde, parece impossível por perseguição política autárquica – quem acreditava que viviamos numa democracia? Não vale a pena continuar a trabalhar dentro de um sistema ultrapassado, de baixa rentabilidade humana e pouquíssima inteligência. Nem numa comunidade de solidariedade minada, de tristeza inata, de inveja velada.

Eras sobre eras se somem no tempo que em eras vem. Ser descontente é ser homem .

Frases do Mundo

“O facto mais incompreensível no Universo è que ele é compreensível”, Albert Einstein (1879 – 1955), físico e matemático.

“A partir de complexidades intensas imergem simplicidades intensas”, Sir Wiston Churchil (1874 – 1965), escritor e homem de estado britânico.

“Desconhecer aquilo que aconteceu antes de nasceres é permanecer uma criança para sempre”, Marco T. Cicero (106 BC – 43 BC), professor, homem de estado, orador romano.

“Se fiz algumas descobertas de valor, foi mais devido a uma atenção paciente que a qualquer outro talento”
Isaac Newton (1642-1727), matemático e físico inglês.

“Um homem viaja através do mundo à procura do que necessita, e volta a casa para o encontrar”, George Moore (1852 – 1933), escritor, poeta e dramaturgo irlandês.

“Os factos não deixam de existir por serem ignorados”
Aldous Huxley (1894-1963), novelista, crítico e poeta inglês.

“Uma experiência nunca é um falhanço porque serve sempre para mostrar alguma coisa”, Thomas Alva Edison (1847 – 1931), físico e inventor estado unidense.

“O futuro vem devagar, o presente foge e o passado permanece fixo para sempre”, Friedrich von Schiller (1759-1805), poeta e dramaturgo alemão.

“A essência do conhecimento é: tendo-o, aplica-lo; não o tendo, confessar a sua ignorância”, Confucius (551- 479 AC), filósofo chinês.

“O que é passado é prólogo”, William Shakespeare (1564 – 1616), poeta e dramaturgo inglês.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sera dificil perceber

Crises políticas populares nos países do Norte de Africa e na península arábica, crise económica no mundo, mais grave na Grécia, Islândia ou na Irlanda, agora também na Espanha e Portugal (em que eleições antecipadas com campanha já em curso baralham um pouco as ovelhas). Muito descontentamento em muitos países africanos e outros europeus, no Japão mesmo. Onde as economias nacionais, regionais ou intercontinentais estão em crise, demonstra-se o abuso imenso e prolongado do poder (económico, religioso, político, militar) na exploração dos povos e dos recursos naturais. O esbanjamento de riqueza, por muito poucos, em bens de fachada, de estatuto, de velhos e novos ricos, sem qualquer reprodutividade, enquanto milhões de povos, lutam diáriamente pela água indispensável. Podemos passar para a outra margem?

Sera dificil perceber

Crises políticas populares nos países do Norte de Africa e na península arábica, crise económica no mundo, mais grave na Grécia, Islândia ou na Irlanda, agora também na Espanha e Portugal (em que eleições antecipadas com campanha já em curso baralham um pouco as ovelhas). Muito descontentamento em muitos países africanos e outros europeus, no Japão mesmo. Onde as economias nacionais, regionais ou intercontinentais estão em crise, demonstra-se o abuso imenso e prolongado do poder (económico, religioso, político, militar) na exploração dos povos e dos recursos naturais. O esbanjamento de riqueza, por muito poucos, em bens de fachada, de estatuto, de velhos e novos ricos, sem qualquer reprodutividade, enquanto milhões de povos, lutam diáriamente pela água indispensável. Podemos passar para a outra margem?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Celebração de vitória

Saindo da via principal Namacurra – Macuse, viramos à esquerda por uma pista estreita, sinalisada, cheia de buracos com água. Serão cerca de cinco kilometros até ao mar, passando a casa da família do antigo Bispo de Quelimane, o mercado e a ponte. Arrumo o carro em cima da duna e o vento do mar refresca os ânimos. A praia, vastíssima e plana na maré baixa, revela ao longe no Sul um enorme ferry boat encalhado. Um pescador estende o peixe a secar num oleado. Outros, a dois, pescam à rede na zona baixa de rebentação. Barcos pintados e com nome descansam no limite da maré alta. As crianças aproximam-se e trocamos exercícios de tai chi. A água está limpa e com uma temperatura ótima, o banho agrada. Hoje é Domingo, mas os dois carpinteiros navais, muçulmanos, atarefam-se sobre um esqueleto de embarcação, casco meio feito. A linha de casuarinas perde-se no horizonte longinquo, mais a norte, até à ilha fluvial de Maroda. Aí, todos os que nascem, recebem o feitiço: ficam Mukwiri!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Praia só

A água estava ótima, quase fresca e bastante limpa. O mar fartou-se de dar peixe, muito “Pedra”. Na vasta extensão de areia bem plana e lisa, reunem-se ao longe pescadores chegados e compradores de longe. Hoje temos iguaria especial, “nhanhombo” de camarão, caules de nenufares, paladares finos e texturas temperadas de leite de coco.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Exegese

A chuva vai caindo, por episódios, às vezes pesada mas mais frequentemente chuviscos. É já noite escura (18 horas) e não há estrelas. Preparo-me para organisar o jantar, arroz de Leitão com legumes, salada mista. Duas de treta e vamos tomar café à Pizaria. O avião da LAM hoje, excecionalmente, chegou a horas e está a descolar.

Assim vai correndo a espuma dos dias, entre nada e quase zero. Tempo é uma dádiva de “Deus”, ninguém pode reinvidicar. Os temas e as ideias sucedem-se. O pântano absorve todas as capacidades de estruturação. Entre as empresas que adormeceram e as casas que apodreceram, a ausência de interlocutores começa a parecer-me óbvia e até imponente.

Portanto, é preciso tomar uma decisão. Poderá haver um elemento exterior determinante na decisão, não é inabitual, gota de água ou viragem estratégica, essa é a “graça” da vida. Não está fácil! O desperdicio de produtividade para o bem é uma patologia social. Há outras. Mas esta é gritante pelas necessidades reais da população. Pequeno exemplo da dinâmica do pântano.

Baixando ao nível da terra mais terra, duas vezes ao dia invadida pela maré, percebe-se que a raça é unanime na dificuldade da construção positiva; apesar das muitíssimas demonstrações colectivas de solidariedade, altamente promovidas e mediatizadas, o sentido geral è do “diabo”, egoista e estúpido. Já nem falo na Fortaleza Dourada. Não há “Profeta” que os oriente. Não há “Deus “ que os salve!

Predomina o animal: alimentação, segurança e afecto. O que muitas vezes, aqui, é quase impossível de conseguir. Mas a resistência da gente é tamanha. E prossegue, às vezes violentamente, maioritariamente contemplativa e expectante, através de invasores e modas, crises e catástrofes. Existe um caminho melhor? Um percurso seguro? Têm muitos “curandeiros” que adivinham o futuro; são futuros pessoais reais; tem muitos economistas que especulam nas bolsas mundiais; são consequências devastadoras.

A deceção da realidade só pode ter a ver com o nível de expectativa que foi colocado demasiado alto. Por quem? Influenciado pelos avós, pais, escolas e sociedade em geral. Uma toxicodependência inconscientemente induzida para a comercialização de antídotos: profissão, família, consumo. Portanto, trata-se de re centrar a realidade.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tanto que fazer

72 horas de e. learning (TB, Olho vermelho, TARV, Testagem VIH) e leitura de alguns artigos médicos: as redes sociais estimulam a produção de hormona da felicidade, pelo que a dependência produzida pelas redes sociais pode ser o resultado de um processo inteiramente fisiológico (Estados Unidos da America); o comprimento dos dedos indicador e anelar no homem indicam o risco de cancro da prostata, aqueles que tem um indicador maior que o anelar tinham um risco 33% menor de desenvolver este tipo de cancro (Reino Unido); o cancro da orofaringe está a aumentar devido ao sexo oral, provocado pelo vírus do papiloma humano (HPV), o que poderá representar uma importante sobrecarga nos sistemas de saúde; por isso, é reforçada a necessidade de implementação de programas de vacinação HPV em jovens antes que iniciem a vida sexual ativa (Estados Unidos da America, Reino Unido).

É para rir ou para chorar?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Termómetro

Do Portugal para o Regional: crise económica grave na Grécia, na Islândia e na Irlanda, moderada em Espanha; alguma desorientação na França e na Alemanha, Finlândia agrava. Do Regional para o inter-continental: revoltas populares no Egipto, Tunisia, Libia, Siria, Yemen; manifestações em Barhaim, Marrocos, Tunisia, Moçambique, Africa do Sul, Malawi. Vaga de emigrantes ilegais a chegar na Europa pela Itália e França, a Moçambique e África do Sul, pela Tanzania e Somalia. Conflitos armados no Sudão, no Tchad, na Nigéria, na Costa do Marfim, no Congo. Milhares de populações deslocadas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Peço a vossa opinião

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Teatro

Fez ontem 37 anos após a Revolução dos Cravos: cravos flores ou cravos espinhos? A situação “económica” e “financeira” do país Portugal está, segundo os “melhores analistas” e respetiva comunicação social, um caos. Muitas frases bem ditas, outras verdades para contar mentiras. Pela terceira vez, o FMI e o BM, desta vez apoiados pelo BCE, estão em Lisboa a “orientar” os políticos locais. Nos municípios rurais as taxas de desertificação documentam o empobrecimento geral. O “estado-ladrão” continua a operar prestigiditações para retirar os dinheiros à população. Estamos num país “moderno”, cheio de auto-estradas, rotundas com fontes luminosas, “explendidos” centros comerciais, estádios de futebol olímpicos, passeios com elegantes guias de granito. O oasis do primeiro ministro Cavaco, as fontes comunitárias, a grande sociedade de consumo e da comunicação, aliados aos mesmos de sempre, conseguiram baixar drásticamente os níveis de humor, harmonia social no território e iniciativa na Caravela de Granito: a re representação do dito encalhamento, originalmente ocorrido cerca do falecimento do Dom Dinis. Sendo o país mais antigo da Europa, possui o sistema político administrativo mais conservador; exemplos Magalhães e Net Público confirmam a inovação na tradição. O dito motim dos oficiais. Há marujos trabalhadores, muito produtivos e inventivos; mas sem o rumo do Capitão, a velocidade mantém-se um centímetro por século (com placa tectonica).

Teatro

Fez ontem 37 anos após a Revolução dos Cravos: cravos flores ou cravos espinhos? A situação “económica” e “financeira” do país Portugal está, segundo os “melhores analistas” e respetiva comunicação social, um caos. Muitas frases bem ditas, outras verdades para contar mentiras. Pela terceira vez, o FMI e o BM, desta vez apoiados pelo BCE, estão em Lisboa a “orientar” os políticos locais. Nos municípios rurais as taxas de desertificação documentam o empobrecimento geral. O “estado-ladrão” continua a operar prestigiditações para retirar os dinheiros à população. Estamos num país “moderno”, cheio de auto-estradas, rotundas com fontes luminosas, “explendidos” centros comerciais, estádios de futebol olímpicos, passeios com elegantes guias de granito. O oasis do primeiro ministro Cavaco, as fontes comunitárias, a grande sociedade de consumo e da comunicação, aliados aos mesmos de sempre, conseguiram baixar drásticamente os níveis de humor, harmonia social no território e iniciativa na Caravela de Granito: a re representação do dito encalhamento, originalmente ocorrido cerca do falecimento do Dom Dinis. Sendo o país mais antigo da Europa, possui o sistema político administrativo mais conservador; exemplos Magalhães e Net Público confirmam a inovação na tradição. O dito motim dos oficiais. Há marujos trabalhadores, muito produtivos e inventivos; mas sem o rumo do Capitão, a velocidade mantém-se um centímetro por século (com placa tectonica).

domingo, 24 de abril de 2011

Gastronomics!

Parte significativa dos dias é dedicada à confecção das refeiçoes chave, o pequeno-almoço e o jantar. De manhã os sumos de fruta (limão, lima, laranja, goiaba, papaia, ananás, manga), frescos e abundantes, as prórias frutas: ananás, banana, goiaba, pera abacate. À noite as saladas, condutos e acompanhamentos, raramente com fruta ou sobremesa. Os convidados variam. Mas a aplicação gastronómica, é sempre a mesma, cronometrada pelo grande relógio da cozinha. Especiarias, algumas, as que há. Azeite sempre. Alho e cebola abundantes. Cores profusas e diversificadas, sempre que possível, sobretudo na salada. Ameijoa, camarão (de água doce ou salgada), peixe, carne de vaca, chouriço, salcichas, raramente porco ou ovos, às vezes galinha cafreal, uma ou outra vez caça. Arroz de legumes, de chouriço ou de ameijoas, esparguete, batatas cozidas ou raramente fritas, fruta pão (como batata). Inovações entram com espigas cozidas, caril de camarão ou de caranquejo, mucuane ou matapa. As saladas sempre com cebola, pimento, pepino, tomate, cenoura, às vezes abacate ou manga (meia verde). O vinho é normalmente branco, mas a cerveja é mais frequente.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Gaia

Onze minutos, penso, é o nome de um livro. Respostas da Cidade de Nampula a Norte, a coisa está a andar. Matope de Inhassunge, no Centro, a coisa está normal. Vibe Zulu, do Sul, na dança e no som, real e físicamente na onda da área bantu actual e de sempre. Rotinas fazem parte de listas, punições monoteístas, quase a abandonar? Que novas maneiras de estar? O ambiente do ralo, muito húmido, favorece o aparecimento de raízes a partir dos troncos, em direção à terra. Outras, da terra,sobem e envolvem os troncos, preenchendo o espaço de arabescos em verde. Há olhares vivos, por todo o lado, dos petizes, há desafios enormes, há caminhos brilhantes, há pessoas, sem dúvida!? Ontem foi a viagem dos 3 pássaros: o enorme, envergadura magestuosa no céu, castanho beje com pontos pretos, pescoço avançado que com 3 voltas planando vem parar ao lado da pista na terra recentemente engradada; o médio azul vivo fluorescente, esvoaça agitado em paralelo e acaba por desviar-se; o pequeno vermelho escarlate fulgurante, foge rápidamente e certeiro na perpendicular. Será um sinal? Que espíritos irão se pronunciar?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manhã com nuvens

No Chuabo Dembe, maré bem vazia, chegavam os pescadores nas canoas, com camarão pequeno, alguns caranquejos, pouco peixe miudo. Estendem o produto no oleado e escolhem separando. Depois irá secar por ali mesmo. Por cima os falcões vão planando em espirais elegantes. Um bando de corvos agita os ares com os piares fortes.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Humidade q. b.

Época das chuvas em força, as ruas do bairro na trazeira da casa estão totalmente alagadas, muitas casas tem a água na soleira das portas, toda a gente anda devagar, descalços com as roupas arregaçadas. A vida da cidade aparenta uma paragem, muitos não vão trabalhar, torna-se difícil circular e muito mais a sítios no meio dos bairros. O Sol despontou à tarde e o calor é intenso. Por sorte, há um vento agitado, que consegue refrescar um pouco.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chuvas fartas

Entretanto, a paisagem humana local não ultrapassa o nível freatico. As iniciativas ficam-se todas pela intenção e as colaborações todas pelo chamamento. Chaman. Por via de facto, vou então entrar mais directamente nessa área dos espíritos da terra. Por mais tempo, conseguiram manter as suas influências...será que me querem aqui?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Fevereiro

A temperatura continua quente mas o clima geral aqueceu. Entretanto, 8 dias out side net, igual a nada. Reafirmando o princípio básico, nada se passa se tu não o sentires. Assentar no ralo? Começar de baixo para cima? Nosso almoço? Os mestres artesões dos batuques não tem a vida fácil.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Valor vital

“De uma forma muito crua, o expoente máximo do valor para todos os organismos consiste na sobrevivência saudável até uma idade compatível com a reprodução. A seleção natural aperfeiçoou os mecanismos da homeostase para que essa meta fosse alcançada. Assim sendo, manter o estado fisiológico dos tecidos no interior de um organismo vivo, dentro dos parâmetros homeostáticos ideais, é a origem mais profunda do valor e da valorização biológicos. Isso aplica-se de igual forma aos organismos multicelulares e àqueles cujo vivo se limita a uma célula”.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Livro da Consciência

“...Gerir e proteger a vida de forma eficiente são duas proezas reconhecíveis da consciência...gerir e proteger a vida é a premissa fundamental do valor biológico. O valor biológico influenciou a evolução das estruturas cerebrais e influencia, em qualquer cérebro, a grande maioria das operações cerebrais...” de António Damásio.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Do outro lado do mundo

O tempo aqui, concretamente nesta época, deixa de existir. Estamos numa dimensão intemporal. Contrasta com milhares de diáriamente recém-chegados (crianças, emigrantes e familiares viajantes), confirmados (estudantes, trabalhadores, empresários), desmobilizados (desempregados) e reformados (doentes), que empreendem as suas lutas no panorama pouco povoado. Como conseguem as culturas antigas, escapar à predação das modas dos conquistadores? São segredos sabidos, escritos, gravados, capazes de lançar a força criativa, iniciadora de novos caminhos, vamos lá ver...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dicionário progressivo do existencialismo


Être, em Francês, quer dizer ser e estar. Just as To Be, in English. Ser e estar seria a mesma coisa para eles? Ou são condicionados pelo contexto? Para os lusófonos, ser é muito diferente de estar. Vernizes de urbanismo arcaico mediterrânico?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Human Nature


No news, good news!

Sinónimo do inferno, o diabo é sempre mais potente que o deus. As boas notícias, os bons desempenhos, projectos conseguidos, as boas acções, os grandes feitos, fazem pouca história, ninguém dá importância. Pelo contrário, as desgraças, as tragédias, viajam rápido no espaço e no tempo.

Sobre a natureza



Percebo os como o mínimo denominador comum para a co existência urbana. Que desenvolveu aceleradamente os progressos tecnológicos, dos quais se aproveitaram sobremaneira. Desencadearam-se na actual estrutura nervosa central do Ser Humano, com prazo de validade desde há dezenas de milhares de anos. O homem é um animal: todos estamos de acordo. Enfim!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ciclos

2011 just starting! Natureza é grande!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tentativas falhadas...

Em outros sites de redes sociais, limitam o número ou a qualidade das palavras. Assim apesar de não ser um texto da minha autoria, já tive autorização do autor, ele mesmo, para publicar. Leiam com toda a calma...

OS SOCRATÍADAS
(ou os 1001 versículos messiânicos)

I
Às damas e aos varões sacrificados,
Que nesta ocidental praia Lusitana
Em tempos que não eram conturbados
Deixaram que passasse a Caravana
De traidores, gatunos e drogados,
Eu canto, p’ra tirar o Zé sacana
Que é isso o que eu, ardentemente, peço
Pois suportá-lo mais eu não mereço.

II
E cantarei também os desvarios
Dos que supostamente governaram
O país e a frota de navios
Que nestes trinta anos naufragaram
E aqueles que, os cofres já vazios,
Dos salários dos pobres retiraram
O fruto do trabalho que os sustenta,
Se, por cantar, o mal se me afugenta.

III
E vós, ventres ao sol, arraia miúda,
Ó vítimas da fome e da injustiça,
Fazei que a vossa inspiração me acuda,
Pois é por vós que a pena a voz me atiça,
Não deixeis que uma boca fique muda
Que o medo e a precisão os lábios plissa.
Morra de inveja aquele que não combata
Se por trinta dinheiros a alma mata.

IV
E a ti que já viste o Limoeiro
E sofreste na pele o amargo travo
Da clara insanidade do engenheiro
Eu ofereço este canto em vez de um cravo
Que as rosas debotaram no canteiro
Onde, hoje, cresce, só, o mato bravo.
Bem hajas tu que deste a grande ideia
De eu mostrar os lagartos da colmeia.

V
Que todo aquele que vive em sociedade
Deve encontrar o néctar de uma flor
Que ao corpo dê um pouco a liberdade
De se saber nutrir com seu labor
Sem cuidar de explorar à saciedade
Dos restantes obreiros o suor
Como o faz o lagarto do cortiço
Que passa a vida inteira a pensar nisso.

VI
E é isto que nós vemos com frequência
Nas sociedades ditas progressistas
Que são acometidas da demência
De protegerem sempre os vigaristas,
Vivendo sobretudo da aparência
A mostrar que são muito altruístas
Com subsídios sacados ao obreiro
Para comprar o voto ao calaceiro.

VII
Cada qual só governa p’ra ganhar
Agindo para obter as clientelas,
Produzir não é alvo p’ra alcançar
Mas sim trazer caniches pelas trelas.
Sendo assim, o dinheiro há-de faltar
E mingar a comida nas panelas.
Cada vez o país está pior,
Mas, agora, batemos o record.

VIII
Noutros tempos Guterres governava,
Vivia-se melhor do que hoje em dia,
Quando o Sócrates ainda militava
Nas alas da Social Democracia,
Mas deste Zé Ninguém não se esperava
O vil trafulha em que ele se tornaria.
Tu que votaste diz como é possível
Ser mandado por quem não mostra nível.

IX
Forçoso é começar por descrever
O carácter do boy que ele era então
Dos caminhos que andou a percorrer
Desde a Direita à Esquerda e ao Centrão
Como provam os recuos, no Poder,
Atitudes normais no aldrabão.
Conquanto todos saibam quem ele é
Nuca é demais dizer como é o Zé …

X
O Sócrates é o Zé Pinto de Sousa
Que, em pequeno, era tido por Zezito
E, ousado aventureiro (quem não ousa?)
Na vida teve sempre como fito
Ser um soba qualquer ou qualquer cousa
Como um Titã cantado nalgum mito
Onde os seus semideuses Socratíadas
Fossem lembrados como n’Os Lusíadas.

XI
Discípulo do tal Grego sem reserva,
Aquele que diz “só sei que nada sei”,
Ressurgido, este trengo ainda conserva
A mesmíssima ideia como lei
E que, para iludir a vil Caterva,
Usa como se fosse um grande rei.
Só lhe falta beber a tal cicuta
P’ra que se seque a sua seiva bruta.

XII
O Zezito mostrava um ar contente
Exibindo o seu diploma adquirido
Lá na Universidade Independente,
Com fraudes e artimanhas conseguido,
Assinando projectos de outra gente
Porque nunca p’ra mais fora intruído
E como um refinado vigarista
Lá foi ele p’ró Partido Socialista.

XIII
Com peneiras e lábia e arrogância
Depressa o fizeram deputado
E, apesar de mostrar tanta ignorância,
P’ra Secretário de Estado foi chamado
E em trafulhices, burlas e jactância
Em que sempre ele andou tão embrulhado
Seria neste Ambiente tão sinistro
Que lhe viram apetências p’ra Ministro.

XIV
Ó tu, pobre Cavaco, ora me ensina
Como tirar tal gajo do poleiro
Pois não passa de uma ave de rapina
Mas é segunda vez nosso Primeiro.
Manda-o já para África ou p’rà China
Se o não podes mandar p’ró Limoeiro.
Mas já que nada podes, como eu acho,
Manda-o embora com um grande tacho!

XV
Que seja p’los pecados deste Povo,
Teimoso no seu voto sempre às cegas,
Eu imploro a Deus, aqui, de novo
Que depressa venha outro João das Regras
Ou que venha o tigre ou venha o lobo
E limpem o país dos Estrategas,
Pois, sem receio, a gente anda a votar
No émulo do Oliveira Salazar.

XVI
E a verdade é que o Tonho inda poupava
Embora nos tirasse a liberdade
Mas este, se pudesse, até limpava
As esmolas das almas, sem piedade.
De uma coisa, contudo, este gostava
E defendia-a com fogosidade:
Ser livre de partir à aventura
Numa qualquer viagem de loucura.

XVII
Mesmo que os outros pagassem a factura
Mesmo que não voltassem nunca mais,
Ele vivia obcecado na procura
De “Paraísos Artificiais”.
De Beaudelaire, sem dúvida a leitura
Teria influenciado o grande arrais,
Por isso o Zé queria navegar
Que “o que importa é partir e não chegar”.

XVIII
Se o mundo é feito de realidades
Que nem sempre são materiais
Como o provam imensas divindades
De que falam a Bíblia e manuais,
Não admira que o Zé visse as cidades
E os campos como imagens virtuais,
Vindo da Net todos os recursos
E o bem-estar do Povo, dos discursos.

XVIX
E, deste modo, tinha de partir
À procura do bem-estar da Gente
Fosse de barco, de nave ou de menhir
Como o grande Obelix, tão valente.
E partiu… `a procura do Porvir,
Armado de um sorriso omnipotente.
Passou ao largo de outras realidades,
Gerou ventos, colhendo tempestades.

XX
Já no Oceano da Net navegavam
Pois “navegar” é fado deste bando,
Os novos, brandamente, ressonavam,
Que as noitadas os iam aleijando,
E os velhos, já cansados bocejavam,
O Social Rendimento lhe bastando,
Só o homem do leme prosseguia
À vela da Nova Tecnologia.

XXI
“De pé, ó nautas da Demagogia –
Dizia ele à récua duvidosa
Que tão servil narrava o que lhe ouvia –
De pé, enquanto eles sonham cor-de-rosa!”
A Oportunidade surgiria
Simplex, serena, Nova e proveitosa:
“Se, dormindo, eles ganharem dois tostões
Nem vêem que ficamos com milhões.

XXII
Lembrai aquele grande marinheiro
A quem o nosso Povo chamou Gama
E, se ele jamais gamou algum dinheiro,
Não me admiro que gamasse a Fama
Da coragem de ser grande guerreiro
Matando as crianças da mourama.
Tomai-o como exemplo, ricos-nobres,
Temei os grandes e batei nos pobres.

XXIII
Nunca se pode um jogador cansar
De dar a pata a quem lhe dá um porco,
Uma migalha a quem o abarrotar,
De prometer a quem já cai de borco.
A pouca grana que se deve dar
Nos levará, Estrategas, a bom porto.
Digam que a tanga é fruto duma crise
E na Grécia já fazem “stipetise”.

XXIV
Tais palavras dizia o engenheiro,
Os caciques instando a actuar,
Quando os deuses se ajuntam no estrangeiro,
Central Banco Europeu, seu doce lar.
“Se os portugueses gastam o dinheiro
- dizia Baco, pronto a atacar -
Em cimeiras e festas para quê
BPN, Alcochete e TGV?

XXV
Não é melhor, comer, encher a pança,
Em meu nome beber da pinga boa
E, em mentes o Zé Povinho dança,
Nós, deuses soberanos de Lisboa,
Pormos a sete os juros da fiança,
Cortarmos nos salários, tudo à toa,
Co’o apoio dos mandantes portugueses
«Tredores», que houve muitos, muitas vezes?”

XXVI
“Que dizes tu, ó Baco, deus do vinho?
- Retorquia Marte alvoroçado –
Façamos guerra do Algarve ao Minho,
Todo o caminho seja portajado
Ou vendamos-lhes algum submarino
Ou algum “caça” meio avariado.
Com’ àssim a pagar eles já não vêm.
Quem poderá pagar quando o não tem?

XXVII
É na guerra que está nosso sustento
E não nas festas onde a pinga abunda.
Numa festa o amor é um momento,
É, no silêncio, a voz, mas não profunda.
Ora, amar, na guerra, é eterno alento,
É vida, é paz, é luz que nos inunda.
Por isso, ó deuses, do Orçamento a guerra
Vai trazer todo o amor a essa Terra.

XXVIII
Assim, teremos controlado as contas
Co’ os impostos que o Povo vai pagar,
Depois do PEC, as marionetes tontas,
Em conjunto, terão que o aprovar.
Ficaremos gordinhos como lontras
E os lorpas, de mãos dadas, a abanar”.
“É minha opinião, ó grande Marte,
E sempre te amarei até que farte

XXIX
- Atalhou Vénus com rubor na face –
Que cuides de meter tanto veneno
Que ao Sócrates e Coelho o Fado trace
Toda uma guerra num ambiente ameno.
Eu providenciarei ao desenlace,
Proporcionando logo o acordo pleno
Que a paixão que os une é-lhes mais cara
Que o meio bilião de euros que os separa”.

XXX
“Confirmo – disse Merkel, sem surpresa,
Por Marte também ela apaixonada -
Se estes milhões são corte na Despesa,
Melhor fora dizer «não cortes nada!».
O que eles precisam é de guerra acesa
Que os expurgue dos boys, à vassourada,
Que reduza os chorudos ordenados,
Lacaios, assessores e deputados,

XXXI
Que acabe com mancípios, privilégios,
Os vencimentos das deslocações,
Subsídios fartos a ricos colégios,
Governos Civis e às Fundações,
Atribuição de apartamentos régios
A juízes e tantos figurões.
Por isso, Marte, apoia a inócua guerra
Que o amor virá depois a essa Terra”.

XXXII
Ouvindo tais palavras amorosas,
Foi Trichet, deus dos deuses, convencido
E alçando o rabo do assento em rosas,
Todo ele a punhos construído,
Deu a beijar as suas mãos mimosas
E o Concílio deu por concluído.
Ó deuses, pois mandais em Portugal,
Por que será que lhe quereis tão mal?

XXXIII
Ora a nave lá ia navegando,
Placidamente sobre as águas calmas,
Quando súbito, a sua vista alçando,
O vigia gritou batendo as palmas
E disse, algumas nuvens apontando
Negras e espessas como aquelas almas:
“Não teremos, ó nautas, salvação
A não ser co’uma tricoligação!”.

XXXIV
“Juntem-se os que foram e ainda são
Os garantes da nobre maioria!”
- Gritavam o Ramalho, o Amado e o vão
Portas, mais conhecido por Vigia,
Se bem que o que fizera até então
Fora apenas tratar da peixaria.
E a Selectiva Espécie Natural
Juntara-se a berrar a Nacional.

XXXV
E quando os gritos roucos entoaram
“Às armas, sobre a terra e sobre o mar”,
Os homens do convés petrificaram
E, olhando, aterrados, para o ar,
Viram que as velas se despedaçaram
Sob uma tromba de água a desabar,
Com gritos e blasfémias misturada,
Despejando-se sobre a marujada.

XXXVI
Trinta sóis do Natal eram passados
Os marujos remavam lentamente
Que os mastros tinham sido destroçados
Durante a tempestade precedente
E os mantimentos eram racionados
Pelos Mestres de toda aquela gente
A fome entre os grumetes era tal
Que se temia um surto canibal.

XXXVII
Tinham lançado tudo borda fora
Que as forças p’ra remar já lhes faltavam
Contudo, sem piedade, a toda a hora,
Os capitães de morte os açoitavam.
Desfeita estava a esperança de melhora,
Sem pão e sem razão todos ralhavam,
Só de esbanjar o Mestre não se priva
Num batel onde tudo anda à deriva.

XXXVIII
Porém, eis que de súbito aparece
Sob o sol moribundo a Ocidente
Como escolho que pouco a pouco cresce
Ou dorso de baleia reluzente,
Talvez a névoa que, em silêncio, desce
E na água pousa o manto transparente,
Talvez seja uma ilha abandonada…
“Uma ilha!? Sus! Remai marujada!”.

XXXIX
Sob o astro mudo a ilha dormia
Pisava-lhe a terra a tripulação,
Nas areias da praia não bulia
Nem um só ramo da vegetação
“E aquela quieta e sã melancolia”
Sufocava, apertando o coração.
Subitamente um vulto apareceu
Ágil, esguio e negro como breu.

XL
“Às armas!”- gritou logo o da vigia -
“Deixai… com calma!”- sossegou o Zé –
É um cão e juro que há muito que eu não via
Outro igual a ele. Que giro é…”.
Mas logo atrás dele aparecia
O perfil de um indígena, de pé:
“- Quem sereis vós que ousais pisar o chão?
Meu chão!..” - Pergunta a Sombra em seu jargão.

XLI
“É Sócrates!” – Diz Passos apontando –
Ele é o causador da situação.
Perdido como ele também eu ando
Mas não sou eu o Grande Capitão.
Indo ele à escola só de quando em quando
Nada aprendera de navegação.
Agora não castigues nosso engano
Porque culpado, aqui, é só o mano”.

XLII
“Tomei sempre as medidas necessárias
Como, no Olimpo, fora decretado,
As reformas de fundo foram várias
E, se ainda não foi remodelado,
Excepto em assessores e secretárias,
Meu camarim parece conservado,
Resta saber que rombos tem o casco
Que, a meu ver, já roçou muito penhasco”.

XLIII
Estas palavras Sócrates dizia
E mais falou da escola de sucesso
E quanto mais dizia mais mentia,
Virando as frases todas do avesso
Até que a sombra, enfim, com ousadia,
Adivinhando o seu arfar opresso,
Cortou: “nada temais, ó gente estranha,
Que já vi malta muito mais tacanha”.

XLIV
Depois, falou da terra onde nasceu,
Da raça de quem era suserano,
Das batalhas e guerras que venceu
Como chefe do povo americano,
De ter ideia, como Prometeu,
Que mais que os deuses vale o ser humano
E, contra a Tirania, o “fogo forte”
Aos homens vida e aos deuses dava a morte.

XLV
Falou ainda muito do seu cão
Que nadava com muita qualidade
Inda que fosse um pouco trapalhão
Ora devido à Naturalidade
Ora que fosse pela geração,
Em todo o caso tinha habilidade
P’ra ladrar em Inglês ou Português
Ou numa qualquer língua que Deus fez.

XLVI
Contou, em pormenor, sobre o Iraque,
O que fizera o seu antecessor
O qual co’ o “fogo forte” de um só traque
Arrasou as cidades do Terror,
Em vinte dias pôs um Povo a saque
E mandou enforcar um ditador
E foi com esse fogo belicoso
Que muito infiel partiu ao céu ditoso.

XLVII
Mais contou que não era qualquer drama
Ter morrido na guerra tanta gente,
Sendo certo que aquele que o país ama
Ficará na memória eternamente
E, se pudesse ser que ele, Obama,
Tivesse de avançar p’ra aquela Frente
Destruir-lhe o programa nuclear
Fá-lo-ia, outra vez, sem hesitar.

XLVIII
“Então és tu – diz Sócrates - o Obama
De quem se fala tanto em Portugal?
O mata-moscas de origem muçulmana
Que tanto ama o seu país natal?
Ó vida! Só a mim ninguém me grama
A mim que nunca fiz nada de mal.
Tomei sempre as medidas necessárias,
As reformas de fundo foram várias…”.

XLIX
“Não mintas mais, ó Pinto – disse Obama –
Que eu sei que és descendente de João Mentes.
No caso da “Fripor” ganhaste a fama
Que atravessou depressa os continentes,
Revolveste o teu couro em suja lama
E fizeste descrer todos os crentes.
Traíste os teus amigos mais leais
E, agora, ainda queres mentir mais?

L
Dizes tu que as reformas foram várias
E dize-lo com muita persistência,
Com leis e portarias tão precárias
Que só parecem justas na aparência,
Lesaste o Povo todo com sectárias
Nomeações por “alta conveniência”,
Aumentaste os políticos e os gestores
E trataste os fajardos por doutores.

LI
Prejudicaste toda a faixa etária,
Permitiste às empresas a insolvência
Abusaste em receita extraordinária,
Trataste opositores com insolência
E nesta enumeração algo sumária
Ainda estás à espera de clemência?
Ó promotor dos cortes salariais
Que nunca para Todos são iguais!”.

LII
“Meu Deus que eu não mereço esse trato –
Disse o Zé com um ar muito sentido –
Uma Cimeira vou fazer da Nato
Em Lisboa. Pois já terás ouvido
Que vestirei, por isso, o melhor fato
E, desde já, amigo, eu te convido.
Veremos quem será mais elegante
Pois no ranking do mundo o sou bastante.

LIII
Já tirei as medidas necessárias …”
“Tens é que as tomar – cortou Obama –
Que este mundo anda cheio de alimárias
E tanto nos aplaude e nos aclama
Como exibe posturas ordinárias
Ou simplesmente algum bombista chama.
Por isso trata lá da segurança
Em defesa da nossa velha Aliança”.

LIV
“Tomei sempre as medidas …”. “Alto lá!
- Atalhou Obama já zangado –
Não fales em medidas, por Allá!
O que tens é de ter muito cuidado
E comprar uns blindados, para já.
Tenho aí cinco que já pus de lado,
Mas tapa as etiquetas que eles têm
Para que ninguém saiba donde vêm.

LV
Pagarás com o pré do contribuinte
Que é funcionário e já nem o recebe.
Porquê cinco por cento em vez de vinte
Que lhe extrais do ordenado, se ele os bebe?
Nunca faças figura de pedinte:
Quem não ‘stiver contente, faça greve.
Se afirmarem que foram três milhões,
Tu dirás que são todos aldrabões.

LVI
Já que estou a falar de pagamento,
Ainda não pagaste o “softuere”
Que compraste ao “Billguei”, naquele momento
Em que a Lurdes foi tua “partenere”,
Porém não te incomodes que eu assento
Pois vais tudo pagar haja o que houver.
A verdade é que o preço dos blindados
Vai subir: por estudos realizados

XVII
Tanto na Grécia, França ou Inglaterra
Como na Áustria, Itália ou na Hungria,
As manifestações são como terra,
Aumentando a procura dia a dia
E em consequência o preço que ela encerra.
Impera em Portugal grande abulia
Mas diz-se que haverá greve geral
O que torna esta compra natural.

LVIII
Agora vou pedir-te, por favor,
Que me encomendes já o meu discurso
A falar dos perigos do Terror
E das “grandes opções do plano” em curso,
Para darmos ao mundo mais Amor
E usar a guerra só como um recurso…
Mas só por mim ele seja pronunciado
E não por nós os dois em duplicado”.

LIX
Atalhou o Zequinha que, a seu ver,
A vergonha do Campos e Mendonça
Não podia voltar a acontecer.
O azar, o bruxedo e a geringonça
Dês sempre a esta pasta foi bater
Mas esta é a Obra pública mais sonsa:
É Obra presenciar Ministro lendo
O que o seu Secretário ia dizendo.

LX
Qual seria o papel dos dois morcões,
Soletrando um discurso tal e qual
E no Dia das Comunicações
Transmitido p’ra todo Portugal?
Uma “gaffe” a lembrar as emoções
Do anterior Ministro, desleal,
A desmentir-se ao próprio e a si, Zé,
Com Alcochete sim, não e “jamé”.

LXI
O americano ouviu ainda mil
Lamúrias do Zezito com seus tiques
Das “reformas de fundo” e o subtil
“Medidas necessárias” p’ra caciques,
Saídos da neblina de um Abril,
Divulgarem em fartos piqueniques,
E, paciente, ouviu a história louca
Dos párias e do Fisco que os apouca.

LXII
Pouco a pouco o ar da praia arrefecia.
Chamou Barak Obama a comitiva
Que na sombra da mata se escondia
A qual, por sua própria iniciativa,
Cercou a armada lusa, em euforia,
Que dos “seus bons costumes” fez cativa.
A “caritas” entrou naquele batel
Preso, ali, por durável arganel.

LXIII
Enquanto os mantimentos se amontoavam
Carreados, sem cessar, pelos gentios
Para o porão, no qual já dormitavam
De sono e fome todos os vadios,
O Sócrates e o Obama conversavam,
Recostados na areia, reinadios,
Sem “uiquilique”, enfim, sem jornalistas
Mas orgulhosamente sempre autistas.

LXIV
Durante vários meses, os dois povos
Conviveram felizes, nas chefias,
Que os humildes, os néscios e os mais novos
Se apressavam, velozes, nas coxias,
Para atingir a popa, o céu dos probos,
E fazer entrar luz pelas vigias.
A engraxar urgia ainda o mastro
Depois de equilibrar, no fundo, o lastro.

LXV
Porém, para maior felicidade,
Devia ser tomada outra medida
Pois Obama, não vendo uma vontade
Do Zé em apressar a despedida
E a sua resistência à “caridade”
De lhe pagar a dívida assumida
E sabendo que tinha mais despesa
Tratou de organizar sua defesa.

LXVI
E a mais barata e simples solução
Que ele algum dia houvera imaginado
Consistia em falar-lhe ao coração
Onde ele tinha “um aperto” comprovado,
Quando sobre o Orçamento o seu sermão
Nas rádios e TV foi divulgado,
Não se sabendo ao certo se esse aperto
Provinha do conserto ou do concerto.

LXVII
Por seu lado, o Zezito bem sabia
Ter perdido o maior quinhão da multa
Que o Governo Civil ocultaria
A pedido dos boys e gente estulta
De Câmaras, Partidos, Confraria
De fanáticas áspides que insulta
Toda a Lei da Justiça e a Natural
Ao não nos tratar todos por igual.

LXVII
Só vinte e oito milhões foram perdidos
Por mera culpa destes responsáveis,
Além dos biliões dos evadidos
Dos lucros das empresas intocáveis
Mais os cinco por cento concedidos
Ao César dos Açores, ilhas prestáveis.
Ave, ditosa Pátria, minha amada,
Que ao pobre tiras tudo e ao rico nada!

LXVIX
Por isso, ao Zé, também não interessava
Sobrecarregar muito o hospedeiro,
Primeiro porque o Obama não fiava,
Segundo porque não tinha dinheiro
Terceiro porque, aos três dias cheirava
Tanto a visita como o carneiro.
Por isso, tomou ele a dianteira
Dizendo que ia ter outra Cimeira.

LXX
Na Justiça, além disso, as demissões
Forçavam seu mais rápido regresso
Pelo que eram muitas as razões
Para se dar início ao processo
De se aparelhar as embarcações
Sem, contudo, haver pressa em excesso
Que o maior inimigo do perfeito
É sempre mais a pressa do que o jeito.

LXXI
Durante cinco luas trabalharam
A restaurar o barco e sua gente
As tribos que na praia se ajuntaram.
Os mordomos, os amos e o Regente
Da Lusa Companhia descansaram,
Lassos de areia e festas eloquentes,
Até que numa bela madrugada
O Zezito subiu à amurada.

LXXI
Ou porque lhe admirasse o seu estilo
Ou, para isso, fora convocada,
Juntara-se a “maralha” para ouvi-lo,
Na praia, toda ela engalanada.
Havia aqueles que lhe deram o Asilo
E não faltava um só da marujada,
Em filas agitavam bandeirolas
E, dançando, bebiam coca-colas.

LXXIII
De súbito, um silêncio sepulcral
Abafou danças, vozes e bandeiras
Vindo abater-se sobre o areal.
Do seu corcel descia as estribeiras
Obama, o anfitrião, que de um sinal
Deu o seu aval ao Zé das cavaqueiras
E, metendo a mão esquerda na direita,
Abençoou o cão e a sua seita.

LXXIV
Explodiram as palmas e os “vivas”
Na nave e na Assembleia, em todo o lado.
O Zé passava a língua p’las gengivas,
Olhava o fato escuro, bem vincado.
Depois, ao fim de duas tentativas,
Abriu a boca muda e, animado,
Abriu também os braços e … sorria
E, enquanto ele sorria, já mentia.

LXXV
“Morningue tu dei ai not du futingue –
Abriu o Zé, fechando a um tempo os braços –
Ai héve note taime for smoukingue…
- A malta bateu palmas, dava abraços -
Bât mai costum iz naice… chip for holding
Ai secure… sank iú …” – e, de olhos baços,
O Zé humedeceu… e emudeceu
A terra da Fortuna e o povoléu.

LXXVI
O coração estoirava num aperto,
Numa angústia brutal, numa aflição
Pela total ausência de um acerto
Que o orador levasse à aplicação
De uma língua comum, como um enxerto,
Que desse às duas tribos compreensão.
Por isso, o difusor da anglofonia
Suava quando a boca se lhe abria.

LXXVII
E logo optou por dirigir aos seus
Alguns termos na língua de Camões
E ou que fosse o Diabo ou fosse Deus,
Mesmo por parte dos anfitriões,
Mal sua língua natal voou aos céus,
A praia redundou em ovações:
“Amigos, aqui estou!... os portugueses
Conhecem-me … bastante … há muitos meses.

LXXVIII
Não estamos em festa, mas em crise…
(Assobios romperam da assistência)
Nós não podemos ter qualquer deslize…
(A Assembleia aplaudiu em consequência)
Urge, então, promover que se analise:
Ou o nosso sacrifício ou a insolvência…
(As palmas não vieram das chefias)
Mas nada de tocar nas mais-valias!”.

LXXIX
Foi aqui que as chefias aplaudiram.
E a cavaqueira ainda se alongou
Pela manhã e, enquanto os chefes riam,
O Sócrates os braços apertou,
Cruzou e descruzou e já pendiam
Quando um ausente e fixo ponto olhou:
“Precisamos de ter tento na língua
Ou querem morrer todos à míngua?

LXXX
Algum bota-abaixismo corriqueiro
Tem grassado na praça de nós todos.
As “medidas difíceis”, em primeiro
São só sectoriais e não a rodos,
São “necessárias” como um sucateiro…
Não se deixem cair naqueles engodos
De que a crise é resolvida sem impostos
Pois viriam a ter muitos desgostos.

LXXXI
Saber ler, escrever, também contar
É o grande objectivo nacional,
Tal como, em tempos, disse Salazar.
O excesso de instrução é sempre um mal:
Do trabalho o mercado vai parar
Se não se promover um curso tal
Que permita um canudo sem escola
E que dê aos alunos uma esmola.

LXXXII
Já encomendei à OCDE
Um rankingue sobre a “nossa” Educação,
Com dados “nossos”, como manda o Zé,
E já temos a “nossa” conclusão:
O insucesso levou um pontapé
E o abandono já teve solução!
As reformas têm sido estruturais
E, em breve, nem é preciso estudar mais.

LXXXIII
Quanto ao Iva, não há qualquer aumento,
Mas tão só um acerto com a crise.
Ora, em particular, neste momento,
O Ministro … é preciso que se frise…
Das Finanças… é um barra… é um portento
E não há quem melhor o caracterize
Do que a bem conhecida Agência Lusa
Numa notícia que ontem foi difusa.

LXXXIV
Devemos ter orgulho em ele vir
Já na décima sexta posição
Dos melhores ministros… Omitir
Tão elevada consideração,
… “Dezasseis em dezanove” …era fugir
À nossa solidária obrigação.
À imprensa, também, os parabéns
Pois enaltece os “nossos” capitães.

LXXXV
Sinto-me muito triste e abatido
Por ver na Oposição tanta ignorância…
Como pode não ter reconhecido
Tanto trabalho a par da petulância?
Por não terem de Estado algum Sentido
Bem sei que lhes mostrei certa arrogância,
Mas hoje que não tenho a maioria
Não podíamos ter mais harmonia?

LXXXVI
Que culpa tenho eu que os Presidentes
De Câmara e esposas vão de férias
Ou em viagens mais e mais frequentes
Porque as Empresas de Águas sem Bactérias
Das quais eles sempre foram bons agentes
Lhas pagam e aos impostos não dão néria?
As empresas que são municipais
Tiveram sempre Estatutos Especiais!

LXXXVII
Como disse estou farto de ignorantes…”
Irromperam aplausos na assistência.
“ …Quero dizer… mas não nos governantes…”
Há palmas, mas de mera complacência.
“… Mas a minha resposta já a dei antes
E a minha resposta é a persistência…
Que esta nau entrará no bom caminho…
Bem sabem… Não há rosa sem espinho.

LXXXVIII
Ao contrário do “nosso” Magalhães
Que emigrou para além da Venezuela
Nós vamos encontrar as nossas mães
Descobrir um caminho para ela,
A Pátria, que hoje está de parabéns,
Pois restaurámos esta caravela,
O caminho da Net e não do mar
Para todo o meu povo navegar”.

LXXXIX
Mal disse estas palavras, o Astronauta,
Hoje em dia nomeado o Banda Larga,
Ergueu-se a Lusa Companhia, exausta,
Das escopetas dando uma descarga
E os nativos, marchando ao som da frauta,
Entoaram uma melodia amarga.
Subiu à barca, então, o bravo Obama:
“Se quiseres ficar, ninguém reclama…

XC
- Disse ele, olhando o Zé com alegria –
Não tens que aturar toda esta “tropa”,
Seguramente, o povo agradecia…
Não fugiu o Barroso p’rá Europa
E o Guterres, Constâncio e companhia?
Tu sabes, muita gente não te topa:
Começa tudo a arder, barbas de molho,
Em terra de ceguinhos, manda um olho!...”.

XCI
Porreiro, pá!... Mas não…, não trairei
- Disse Sócrates, muito emocionado -
Primeiro a minha terra, a minha grei.
De qualquer modo, um muito obrigado.
E juro-te que não me esquecerei
Do caso dos blindados… Combinado!”.
E a gente Lusa a nau aparelhou
E aos vivas dos gentios lá zarpou.

XCII
Dando a todos as ordens e os recados
À esquerda e à direita e aos do leme,
O Sócrates mostrava-se em cuidados,
Apesar de ser homem que não teme.
Pensava na “confiança dos mercados”
Naquela grande dívida que o espreme,
Pensava na proposta do Obama,
Que aceitava … se não perdesse a mama

XCIII
Dos negócios, naquela Pátria insana…
Ainda era uma coisa para ver …
E a Cimeira Ibero-americana?
Seria a ocasião para vender
Seja à pátria do Hugo ou à cubana
Alguns magalhãezitos, que é dever
De empresário do seu país natal
Do qual ele era o mais fiel zagal…

XCIV
Se, ao menos, se exprimisse sem problema
Na língua de Shakespeare, era assente
Que isso ia pesar muito no dilema,
Mas as línguas daquela Independente
Foram consideradas um eczema
Que a Oportunidade Mais Recente
Resolveu com imensa prontidão
Porque só isso é que era … Educação.

XCV
E a nau sulcava as ondas azuladas,
Como a Alice, “naquele enlevo de alma”,
As sereias cantavam, descascadas,
Que a nudez de princípios tudo acalma,
Os capitães untavam com pomadas
As costas e as mãos, com muita calma,
E “colhiam” dos dias “doce fruito”
“Que a Fortuna” não pode “durar muito”.

XCVI
O sol queimava o corpo e as ideias,
Mas, pouco a pouco, um espesso nevoeiro
Ia inquietando as míticas sereias.
Continuando a sonhar, o timoneiro
Tinha ordenado o assalto às ameias
De imaginárias torres de frecheiro,
Sendo a névoa o castelo assombrado
E ele, na tarde fria, o Desejado.

XCVII
A nau rasgava as vagas sem parar
Até que, com a maior serenidade,
Tranquilamente, a treva deu lugar
A uma inquieta e morna claridade
E sob o brilho turvo do luar,
Surgiu, em toda a sua majestade,
Por sobre a água clara e deleitosa
A sombra de uma ilha temerosa.

XCVIII
Lentamente, ancorou a caravela,
Mas, devido à estranha escuridão,
Tomaram-se medidas de cautela
No desembarque da tripulação:
Uma dúzia ficou de sentinela
Enquanto outros tinham por missão
Descarregar as arcas e os barris
Para aprovisionar… e os fuzis.

XCIX
Desceram os pioneiros com punhais
Juntamente com homens bem armados
Que formavam as filas laterais,
Enquadrando os paquetes carregados,
Desceram, logo atrás, os maiorais
Por mais outros gorilas escoltados.
Enfim, tendas montadas, uns comeram
E outros, na paz de Deus, adormeceram.

C
O quarto da modorra era passado
Quando se ouviu um grito lancinante.
Ergueu-se o povo luso alvoroçado
E, olhando as águas, viu muito distante,
Só as velas, no oceano encapelado,
E um sulco branco, ténue e espumante
Que a quilha traça quando ao mar se faz
E que persegue o ávido alcatraz.

CI
Na praia não restavam senão tendas,
As arcas, os barris e os capitães.
As caras dos doutores eram tremendas,
Sem batedores, sem armas e sem bens,
Sem soldados, sem guias, sem comendas,
Terrivelmente sós e sem reféns.
Olharam, aterrados, para o ar
E pediram a Deus para os salvar.

CII
Ouviu-se uma terrível gargalhada
Vinda do oceano imenso circundante
E uma enorme figura debruçada
Sobre eles, com voz rouca, praguejante,
Olhava a triste elite destroçada
Que ali jazia imunda, suplicante.
Na sua mão direita, um tridente
Assustava o medroso contingente.

CIII
Esverdeado era o seu cabelo,
O tronco desmedido, colossal,
As barbas transparentes como gelo,
Dos queixos e da boca um caudal
Escorria de baba de camelo,
O olhar era vítreo, abissal,
O corpo todo nu, a voz tremenda
Soltou do peito, grossa, fera, horrenda:

CIV
“Eu sou Neptuno, sumo deus do mar,
Aquele que vós traístes, não cuidando
De a flora e a fauna conservar,
Os pescadores andastes explorando
Em vez de as minhas águas explorar
E alimentar o povo miserando.
E porque, para ele, fostes traidores
Aqui vos pus na Ilha dos Horrores”.

CV
“Mas aonde foi a nau e os meus bens?”
- Inquiriuu o Zezito, ousadamente –
“ Não imagines tu o que não tens
- Retorquiu-lhe Neptuno, asperamente –
Que a nau que dirigias com reféns
Será sempre do Povo, eternamente.
O Povo é que a dirige e a sustenta
E não o teu comando que a atormenta.

CVI
A nau está agora em boa mão
Que a terra é só de quem a trabalhar.
O rato e o capitão, diz o rifão,
São os últimos, sempre, a abandonar
O barco quando ele está em aflição
E muito perto já de naufragar.
Ora tu, ó ratão, foste o primeiro
Por isso não és dela seu herdeiro.

CVII
Foge, portanto, antes que te mate”.
E levantou bem alto o seu tridente.
Correram os mesquinhos a rebate,
Um e outro empurrando o precedente,
Virando todos costas ao combate
Cada qual por pirar-se impaciente
Até um lodaçal onde pararam
E, asquerosos, aí se espolinharam.

CVIII
E eis que súbito, olhando em redor,
Viram sobre um rochedo uma figura,
No olhar sendo visível grande dor.
Talvez Amor marcado p’la amargura
Os Erros, má Fortuna ou o que for
O teriam levado à sepultura
Que era mais viva a pena que o habitava
Do que o corpo que a ela se agarrava.

CIX
Uma coroa de louro sobre a fronte,
Numa mão tinha a pena e noutra a espada,
Um olho contemplava o horizonte,
O outro era uma pálpebra fechada
E, olhando o fraco grupo ali defronte,
Proferiu, com voz triste e apagada:
“Sou o grande Camões, homem sem sorte,
Aquele em quem poder não teve a Morte,

CX
Aos Céus me hão subido, onde sou deus
Embora esse estatuto mo tirassem,
Meus versos eram lidos nos liceus
Até que, com reformas, transformassem
As escolas em circos e museus
Onde o ensino e a cultura se atolassem.
Fostes vós que causastes este Inferno
Votando ao esquecimento o que é eterno.

CXI
Tenho pena de não usar a pena
Para com ela vos dilapidar
Mas de Minerva a sua voz amena
Impôs aos mortos não participar
Naquela vida que chamais terrena
E que, para nós, não vai mais voltar,
Mas, se a pena da esquerda é interdita,
O uso da espada Marte mo permita.

CXII
A “glória de mandar, a vã cobiça”,
O crime da influência e a corrupção,
A avareza, a mentira e a injustiça
Acorreram em vossa perdição,
Uma trama de casos vos enliça
Merecendo a mais alta punição,
Assim, hei-de matar-vos, já predigo
Ou “acabe-se esta luz, ali, comigo”.

CXIII
Por isso, incréus, passai daqui ao largo,
Que a paciência tem o seu limite
Se não qu’reis conhecer o gosto amargo
Desta lâmina a cujo apetite
Eu nunca ousarei pôr algum embargo
Que se trate de párias ou da elite.
Ao largo, pois, vos digo, fariseus,
Ou vos matarei todos, juro a Deus!”.

CXIV
Não era ainda a frase terminada
E já se iniciara outra corrida:
Fugindo não à pena, mas à espada
Que mais que a honra lhes valia a vida,
Sócrates ia à frente da manada
Porque era mestre de armas nesta lida,
Atrás seguia o Passos, ofegante
Como convém a todo o ajudante.

CXV
Impossível seria descrever
Tantos horrores por que passou o bando,
Sendo os boys quem mais veio a sofrer
Pois, de longe, já vinham tropeçando
Na natural viagem do Poder,
Mas de tudo o que ali se foi passando
Pior é “experimentá-lo que julgá-lo
Mas julgue-o quem não” quer “experimentá-lo”.

CXVI
Quarenta noites e quarenta dias
Vagueou a medrosa potestade
Por desertos, por matas, serranias,
Com fome e frio e sem civilidade,
Angustiada com as profecias
Que Camões anunciara sem piedade.
Contudo o que os humanos não sabiam
É que os deuses, no ilhéu, se divertiam.

CXVII
De facto, enquanto a heróica Caravana
Galgava, a medo, terras pantanosas
Ou abria caminhos na savana
Povoadas de serpentes perigosas,
Temendo mais o gume da catana
Do que o morso de aranhas venenosas,
A imagem de Neptuno e de Camões
Acossava a cambada de poltrões.

CXVIII
Quando a Corja era à vista, se escondiam
Os deuses que, com risos delirantes,
Divertidos, por turnos se escolhiam
Para assustar, de novo, os meliantes
E os fazer correr enquanto os viam
Até caírem gastos, ofegantes.
Depois, era deixá-los levantar
E, entre outros animais, desesperar.

CXIX
Foi assim que “os heróis” tendo alcançado
Um ribeiro entre abruptas penedias
Para se lavar da bosta e vomitado
E muitas mais outras porcarias
De que o grupo seria agraciado
Pelos deuses, nas suas caquexias,
Lhes apareceu, súbito, Vulcano
Com ar feroz, mas calmo e soberano.

CXX
“Olha, cá está o nosso amigo Obama!”
- Disse o Zezito para os seus botões –
“Obama, não, ó tu, monte de lama
- Parecendo que o deus lera nas feições
O claro pensamento do “da mama”-
Eu sou o deus do fogo e dos vulcões,
Aquele que veio à Terra disfarçado
Para se decidir teu triste Fado.

CXXI
A Wikileaks diz, e com razão,
Que em Portugal passaram prisioneiros
Para Cuba, deixando o seu torrão,
Além disso, tu foste dos primeiros
A mandar tropas p’ró Afeganistão,
Só tens negócios com os sucateiros,
No teu sangue só ferve o fogo forte
E o fogo com que matas dá-te a morte.

CXXII
Portugal foi por ti ludibriado,
Que esta malta à mentira é predisposta,
Crescendo-te o nariz demasiado
Assim como em Pinóquio, a tua amostra,
E tanto dele fizeste um aliado
Que a tua enorme nariganga “posta
Entre a Terra e o Sol”, como um taipal,
O eclipse só podia ser total”.

CXXIII
E a vós, ó sanguessugas do país,
Habitantes da Ilha dos Horrores,
Cortar-vos-ei o mal pela raiz
Pois já basta de tantos comedores.
O Povo é que vai ser vosso juiz
Que no Forum se julgam os traidores.
Aos deuses vós queríeis ser iguais,
Mas não passais de meros animais.

CXXIV
Por isso, eu digo que é tempo de correr
Por montes e por vales, alcateia,
Pois sei que tendes medo de morrer
Ou pavor de irdes presos p’rá cadeia”.
Correi anjos da morte que o Poder,
Efémero, é certo que escasseia.
Correi enquanto é tempo e o Tempo corre,
Correi, que a minha arma em vós não borre!”

CXXV
Não havendo mais nada p’ra dizer
Recomeçou, de novo, a Odisseia,
Continuando os burros a correr
Com medo de uma nova Patuleia.
Como correm não posso descrever
Pois, não sendo Camões, não tenho a veia,
Mas, como nas histórias infantis,
Sei que correm por vales e alcantis,

NAS PAISAGENS VIRTUAIS DESTE PAÍS

Manuel Dias Baptista

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Imprevistos

Todos esperávamos a chuva e as pressões (Baixas penso) estão desaustinadas. O céu passou por todas as cores e o vento ameaçou. Pensava que era 22, quarta, mas é já 23, quinta-feira. Depois de recuperar o cartão com chip electrónico perdido por erro de velhice (2 anos) Banto, traduzido no ATM do SB, comprei Palmiers no Delícias e passei a taxi do mercado central. Pilhas a 2,5 Meticais. Sandálias de plástico. Avanço para a Temba, passo sem interferencia da Polícia de Trânsito, ou outra, arrumo no terreno bem limpo. O que se faz? Nada, só, está-se! Mas cada gesto contém um significado insuspeito! A maneira de gatinhar da criança, anuncia a vinda de hóspedes!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Construção tradicional

São cinco horas e trinta da manhã e o sol ainda não ultrapassou a linha do horizonte, mas muitas pessoas trabalham já no Mercado Central a montar novas bancas. Dirijo-me para o porto das madeiras, onde chegam as canoas de Inhassunges carregadas de vários tipos de paus. O estaleiro é grande, muito movimentado já a esta hora, com pilhas de vários tipos de varas e paus mais fortes. Os homens descarregam as canoas e transportam as pilhas de varas à cabeça, para um local mais acima, onde carregarão os “tchovas”, carros de ferro com 2 rodas puxados à mão; daqui passarão para os vários mercados da cidade, onde os compradores adquirem a matéria prima para construir as palhotas – há muita construção em Quelimane!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Chuva tropical

O coaxar das rãs e sapos é ensurdecedor, alternando com o gri gri dos grilos e cigarras e temperado pelo chilrear de vários pássaros. Algumas galinhas e pintos piam e agitam-se na procura de poleiro, as ruas dos bairros estão totalmente alagadas, muitos quintais e algumas casas também. As crianças continuam a circular, chapinham e brincam aos equilibrios sobre as àguas castanhas, enquanto algumas gotas finas vão caindo quase ininterruptamente. Algumas pessoas, de calças e capulanas arregaçadas, circulam cuidadosamente com água pelo joelho. A loiça do almoço lava-se agora à porta de casa, no lago do pantanal! O céu está cinzento prata com nuvens cinzento platina, o verde das palmeira mais vivo da água, temperatura agradável a 3 metros de altitude.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fim de tarde

Sem dar por nada, o tempo passa rápido. Ao fim da tarde o Mercado Brandão está cheio de gente, colorida e circulante, a pé, de bicicleta, mulheres com filhos nas costas outras carregadas à cabeça, todo o tipo de mercadorias à vista, homens descarregam camiões e transportam volumes incríveis. O jeep avança lento alternando lombas e buracos, desviando camionetas e motorizadas. Os ananases estão a 30 meticais, ao lado do Malambe, Mandioca, Nhocas, carvão, roupas, sapatos, sacos e infinidade de produtos. Mais à frente, amendoim e muito feijão, vermelho, castanho, creme e amarelo. Moçambicanas muito lindas abundam, crianças ainda mais por todo o lado. Muitas penteiam-se umas às outras, sentadas nas esteiras dispostas no chão de areia dos recintos das casas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O que se passa...

Mil noites, mil e um dias, muitas mais vidas, muitíssimas mais histórias, um sem número de emoções, sensações nem digo. Outra coisa são as ideias. Nascem por todo o lado, como as flores, lindas. Florescem, algumas frutificam.

O que se passa...

Mil noites, mil e um dias, muitas mais vidas, muitíssimas mais histórias, um sem número de emoções, sensações nem digo. Outra coisa são as ideias. Nascem por todo o lado, como as flores, lindas. Florescem, algumas frutificam.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tratamento social

A “Matoa” é uma das doenças frequentes na Baixa Zambézia. A Nganga dirige-se para a casa da pessoa doente, acompanhada de 10 mulheres e 10 homens. Ficarão a comer e a beber, a dormir, dois dias, para realizar toda a cerimónia; o dono da casa deve fornecer todo o necessário. Os homens tratarão dos batuques quase em permanencia, as mulheres dançam e cantam. Paga-se 2.000 Meticais por dia, portanto quatro mil, que a Nganga depois repartirá com os 20 membros do grupo. A pessoa ficará bem, sem doença, durante 3 ou 4 anos, mas pode ter uma recaida. Se tiver um segundo episódio de Matoa, fará um segundo tratamento, semelhante ao primeiro. A partir daí, o paciente fica transformado – dizem mesmo em chuabo, diplomado – tratador de Matoa. Passa a ser ele a resolver o mesmo problema a outras pessoas!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Cidade de Pó


Fino e brilhante, cobre tudo. Ondulante como dunas, penetra em todos os recantos. Levantado pelo vento, chega a todas as alturas. É o que resta de milhões de anos de erosão, antes e depois da erupção do Grande Rift, de pedaços do paraíso. O céu fica muito cinzento, parece que está a anoitecer mas ainda é cedo na tarde. Um relâmpago. Um trovão, como se não ouvia já há meses. Algumas gotas caem dispersas.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Início do ciclo

Sai-se da estrada principal à esquerda, pouco depois da placa de Quelimane, já em Namacata. Algumas casas térreas de alvernaria, palmar misturado com mangueiras e outras árvores grandes, pista com bastante areia e irregular atravessa zona baixa de machambas, entra-se em nova zona de floresta. Várias palhotas, bem espaçadas, cada grupo de 2 a 6, algumas muito elegantes, raras casas de alvernaria com cores garridas. O sol ainda não nasceu e há poucas pessoas, algumas crianças. Arrumo o carro. Caminhamos na floresta, paralelamente às terras baixas, no limite das casas. Bambus e bananeiras enfeitam a paisagem. Entramos na vastíssima zona plana, só de erva, terra crestada de enormes gretas, grandes torrões secos, quase por todo o lado. Tomamos carreiro que segue por cima de divisões de machambas, algumas já com a terra cavada e o capim seco ou queimado. Muito ao longe vêem-se, aqui ou ali, um ou dois vultos. Agora é a altura apropriada para preparar as machambas de arroz; pode-se comprar uma; não tem documento, não é “legal”, mas de facto o que conta são os testemunhos “orais” dos vizinhos; acham que o estado ou o governo não tem nada a ver com isso, que a população toda sabe muito bem que aquelas machambas já eram deles muito antes de tudo. O sol já nasceu mas está enovoado e o calor ainda não aperta muito. É longe, caminhar na terra seca, aos torrões que se esboroam imediatamente, há que manter o equilíbrio. Por fim, a machamba da mãe, que de facto tinha dado algum trabalho a encontrar, mas que está já, após 2 dias de acção, mais de metade cavada. As enxadas são muito curtas e o trabalho faz-se curvado. Vão circulando alguns comentários em Etxwabo e algumas risadas. O sol começa a desafiar. Vai ser só água, dois pães pequenos para cada um, a dar na terra até acabar, lá para as 18. Entretanto há já algum capim para queimar. Depois logo na primeira chuvinha, lançar a semente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ten years after

Sem brigas, pela simpatia das pessoas, pelos desenvolvimentos naturais das acções, o vento moderou o clima e está-se quase completamente bem. Então, parece que por consequência directa, aparece a reflexão sobre porque não mais meditação, análise, síntese, conclusão, proposta, edição, divulgação – influência das redes sociais? Claro, sei perfeitamente o valor e a insignificância dos grandes livros. Mas quem poderá avaliar precisamente os efeitos directos e indiretos das ideias propagadas em palavras numa determinada conjuntura e tempo?
Deparei há poucos dias, quando visitava sites com Probarroso na internet, com a acta da Assembleia Municipal de M em que a Câmara pede a saída da associação. Penso que muitas pessoas e organizações podem atestar e reconheceram o enorme trabalho que aquela associação fez em favor do desenvolvimento sustentavel do Barroso – existem hoje muitas resultantes activas do seu trabalho. Então as mentiras que o Presidente da Câmara apresenta como “verdade verdadinha”, que a própria Assembleia denuncia como uma perseguição pessoal, destinam-se a “queimar” o “herege” Paulo Pires. Esta perseguição manteve-se durante 5 anos, sistemática, até chegar ao caso caricato da Clicoopsa, projecto de clínica cooperativa de promoção da saúde, tratamento e reabilitação: projecto de arquitectura aprovado, estudo de viabilidade económica realizado e eficiente, financiamento conseguido, terreno adquirido, em Salto. O PC recusa passar a liçença de obra enquanto o Dr. Paulo estiver à frente do projecto.
Pequenas estórias do quotidiano ou do Zé Ninguém. No entanto são todas estas gotas que fazem transbordar o copo. Este é mais um caso banal, dos muitos que constroem a crise financeira global. Atraso do desenvolvimento, prisão da iniciativa, poderes usurpados que impedem a criação de emprego e a melhoria da economia das famílias. O PC tinha 4 BMW. O grande capital, ganha sempre, mais ou menos; depois os políticos, ganham sempre, mais ou menos; quem se lixa? Toda a gente sabe: a classe produtiva – aqueles que só sabem trabalhar. A classe produtiva deixa-se levar pelas imagens do consumo aspirando a ser claro “ricos”! O círculo vicioso está criado: trabalhar para consumir, consumir sem regra ou critério, saqueando rápidamente todos os recursos. Precisamos de um novo “livro da consciência”!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quelimane

Levantar às 13, pequeno almoço de fruta. Pela rua de alcatrão esburacada, pela estrada nova alcatroada, pela outra rua de terra de lombas e valas de matope, até ao recinto nas trazeiras do Mercado Central, agora também transformado em terminal de transportes, obrigado pelas obras na rua central. Os “chapas” de Lualua ou Liquari, apregoam destinos. A drenagem da água do buraco central da zona está em curso, vários homens atarefados, máquina em movimento. Passam muitos taxis bicicletas, alguns com passageiros, que desmontam, outros com cargas, de todas as qualidades – levantam as bicicletes ao passar sobre a grossa mangueira de água. Um ou outro faz batota. Um pedinte, cheira a álcool. Batatas, couve, pimentos, alface, galinha. Café expresso e água pequena na Lanche Net, a ver as Muzubias passar, algumas bem feitas, outras bonitas, outras sem mais, outras feias. De quando em quando um carro acelerado levanta poeira. A tranquilidade do estar.